Mundo em Revista

Os fatos que repercutiram na imprensa adventista ao longo da semana               

Márcio Tonetti

Estranheza foi o primeiro sentimento que teve o brasileiro Rickson Nobre, pastor e diretor do centro de mídia da igreja na Suíça, ao participar de um culto presencial depois de ficar em quarentena. Em um relato publicado no site da Adventiste Magazine, ele admitiu que, “mesmo sendo pastor, não estava 100% confortável em retornar à igreja para o primeiro culto após o confinamento”.

Uma das igrejas que Nobre lidera decidiu reabrir no dia 6 de junho, depois que o governo suíço flexibilizou o isolamento social. Medidas como substituir assentos de tecidos por cadeiras de madeira para facilitar a desinfecção do ambiente e manter o afastamento de, no mínimo, dois metros de distância entre as pessoas foram algumas das medidas necessárias para que um grupo de 28 pessoas pudesse voltar a congregar com segurança no espaço que, antes da pandemia, reunia 180 fiéis.

O pastor relata que outro fator incômodo, mas igualmente necessário, foi o controle rigoroso de entrada e saída. Lá, o acesso aos templos que reabriram está sendo permitido se a pessoa deixar seus dados por escrito, o que gera constrangimento especialmente para os visitantes.

Sob condições parecidas, algumas igrejas da Jamaica também voltaram a congregar. Na ilha, as congregações religiosas foram autorizadas pelo governo a reabrir as portas no fim de maio. Mesmo assim, a maioria dos 750 templos adventistas da região continua adorando virtualmente e ainda está procurando se adaptar às diretrizes estipuladas pelas autoridades sanitárias.

“Estamos assegurando que tudo esteja no lugar para o cumprimento efetivo das diretrizes estipuladas, mas as igrejas adventistas que cumpriram as diretrizes foram adiante e tiveram membros dentro do espaço da igreja”, disse Nigel Coke, diretor de Comunicação da igreja na Jamaica (leia mais aqui).

O retorno gradativo às atividades presenciais traz à tona algumas questões que começam a ser discutidas no meio adventista: O público que se adaptou à “igreja virtual” voltará a congregar in loco? Programações on-line continuarão com força ou tendem a se enfraquecer com a reabertura dos templos?

Um levantamento recente feito com 1.930 adventistas da região do Planalto Central mostrou que 82,3% deles acompanhou regularmente, nos últimos três meses, os cultos e programações on-line. Na reportagem do Portal Adventista que apresentou esses dados, Carlos Magalhães, gerente de estratégias digitais da sede sul-americana da Igreja Adventista, disse que alguns fatores levam a crer que nem todos retornarão às igrejas imediatamente. “Muitos estarão com medo da Covid-19, ou preferirão se manter isolados para proteger seus familiares. Outros seguirão acomodados, acompanhando conteúdo espiritual pela internet”, ele prevê.

Por outro lado, Rafael Rossi, líder do departamento de Comunicação da Divisão Sul-Americana entende que o senso de pertencimento a uma comunidade ainda fala alto, fato que foi evidenciado, de certo modo, pela mesma pesquisa. Como o pastor Rossi lembrou, 52,4% dos entrevistados disseram que preferem assistir a pregações feitas pelos seus respectivos pastores e líderes, em vez de buscar programações de outras igrejas.

Rossi sustenta que a migração dos cultos e reuniões para o ambiente virtual foi uma medida provisória e que, portanto, ela não deve se tornar um padrão no pós-pandemia. “Um cristianismo sem igreja pode até durar, mas está longe do ideal projetado por Jesus. O cristão precisa da comunidade”, ele enfatizou, observando que a igreja deve aproveitar as oportunidades agora para ampliar sua influência digital sem criar uma igreja exclusivamente virtual (leia a reportagem completa aqui).

O pastor Glenn Townend, presidente da Divisão do Sul do Pacífico, manifestou um pensamento semelhante no artigo publicado nesta semana no site da Adventist Record. “A igreja tem sido ágil e criativa, mas não queremos que ela se torne dependente da tela”, ele enfatizoU. Em tom de otimismo, Townend disse que a igreja nessa região do mundo não será mais a mesma depois do coronavírus. Com uma visão bastante otimista do cenário pós-pandemia, ele enfatizou que acredita que ministérios voltados para os necessitados aumentarão e que as pessoas estarão mais abertas às verdades das Escrituras por um tempo. “Talvez, Deus esteja nos dando a oportunidade de assemelhar-nos à igreja primitiva do Novo Testamento”, enfatizou o líder da igreja numa região do mundo onde o adventismo também está passando por uma reorganização administrativa.

PESQUISA NA ALEMANHA

Na Alemanha, país em que a pandemia está praticamente controlada, apesar de as autoridades não descartarem o risco de uma segunda onda de Covid-19, uma pesquisa on-line realizada pelo Institute for Holistic Wellbeing and Resilience, de Bremen, revelou qual foi o impacto da pandemia entre os adventistas.

Os efeitos foram mais fortes entre os 17% que se enquadravam no grupo de risco, tinham laços sociais mais frágeis e baixo nível de recursos espirituais. Para eles, o amor, apreciação e apoio da igreja serviam como estabilizadores, o que se perdeu com a pandemia. Conforme concluíram os estudiosos, isso pode ter contribuído para que esse grupo apresentasse maior nível de estresse durante a crise sanitária.

Por outro lado, a pesquisa com 1.306 adventistas de várias faixas etárias constatou que, em geral, a pandemia de Covid-19 teve pouco impacto no bem-estar mental, espiritual e social dos membros da igreja na Alemanha, apesar das mudanças completamente inesperadas.

Três quartos deles disseram que entregaram seus desafios, preocupações e medos a Deus. Além disso, 50% dos entrevistados afirmaram que suas orações foram respondidas e que se sentiam vivos espiritualmente mesmo sem poder frequentar a igreja, percepção que foi mais expressiva entre os idosos. A maioria (70%) dos entrevistados também disse ter alguém com quem compartilhar alegrias e sofrimentos na maior parte do tempo de confinamento.

Outro dado que chamou a atenção dos estudiosos foi que, para 70% dos entrevistados, a emissora de TV adventista foi um forte elemento de apoio nesse período. A pesquisa indicou ainda que as mídias digitais estão presentes na vida dos adventistas alemães em todas as faixas etárias e que isso pode ter sido um fator de resiliência durante a crise de Covid-19.

Em relação à forma como os membros da igreja no país interpretaram a crise sanitária, houve diferenças significativas entre os grupos entrevistados. Mais da metade dos participantes associou a pandemia com a volta de Jesus, porém, a esperança do advento se mostrou mais marcante entre as pessoas com mais de 60 anos (leia mais sobre o estudo aqui).

TEMA DA VEZ

Se no primeiro mês da quarentena o maior interesse dos que visitavam o portal e as mídias sociais da igreja era por temas relacionados às profecias, e depois, por lives musicais, a tendência agora parece ser a busca por conteúdos ligados à saúde. A projeção feita pelo setor de web da sede sul-americana leva em conta o aumento no número de acessos a sites como o querovidaesaude.com. A preocupação dos adventistas no momento é como evitar ser contaminado pelo novo coronavírus e minimizar as complicações no caso de contágio. Por essa razão, a Revista Adventista está preparando um guia para a edição de julho com dicas de como você pode fortalecer a imunidade.

Curso on-line “Como Deixar de Fumar em Cinco Dias” foi realizado por comunidade adventista da capital catarinense

E foi pensando também em ajudar pessoas que podem ser consideradas como grupo de risco para a Covid-19 que a Igreja Adventista Universitária, em Florianópolis (SC), promoveu uma versão on-line do curso “Como Deixar de Fumar em Cinco Dias”. Mais de 80 pessoas se inscreveram para asssitir às palestras de médicos e outros especialistas transmitidas pelo aplicativo Zoom e pelo YouTube (leia mais sobre a iniciativa aqui).

BOLETIM CIENTÍFICO

Um estudo realizado com 928 idosos que já haviam sido diagnosticados com câncer antes de testar positivo para novo coronavírus, mostrou que, em um intervalo de 30 dias, fatores como o avanço da idade, o hábito do tabagismo e o número de comorbidades pré-existentes, como diabetes, obesidade e hipertensão, estiveram entre as principais causas do agravamento da Covid-19 em pacientes que foram a óbito. Mas apesar da amostragem significativa, os pesquisadores concluíram que fatores como raça e etnia, obesidade, tipo de câncer, tipo de terapia anticâncer e cirurgia recente não estiveram associados a mortalidade entre os pacientes. Por essa razão, os estudiosos acreditam que o efeito da Covid-19 em pessoas com câncer depende de novas pesquisas.

Esse é um dos destaques do boletim preparado pelos professores do mestrado em Promoção da Saúde do Unasp. A 12ª edição também desmistifica a informação que tem circulado nas mídias sociais de que a vacina contra a gripe aumentaria o risco de contrair o novo coronavírus. É fake! Outra informação de utilidade pública tem que ver com oportunidades de crescimento profissional. O Instituto Federal do Rio Grande do Sul, por exemplo, abriu inscrições para 110 cursos técnicos a distância em áreas como “Ambiente e Saúde”, “Gestão de Negócios”, “Turismo e Hospitalidade. O objetivo é oferecer aos estudantes a possibilidade de complementar a sua formação básica no período de confinamento. As inscrições podem ser feitas até 30 de junho por meio deste link.

DOAÇÕES DE SANGUE

No Rio de Janeiro, no dia 13 de junho um grupo de 73 voluntários de três municípios se mobilizou para abastecer bancos de sangue que estão com os estoques em baixa. Desde o início da pandemia, 180 jovens fluminenses já participaram da ação nas regiões central e Serrana do Rio.

E se essa é uma necessidade no Brasil, onde foi lançada recentemente uma campanha do Ministério da Saúde com o objetivo de aumentar o número de doadores, também é em outros países. Na Argentina, jovens comemoraram o Dia Mundial do Doador de Sangue (14 de junho) indo a hospitais e hemocentros da região para praticar o gesto de solidariedade.

Ainda no país vizinho, cuja capital registrou aumento do número de casos de Covid-19 nesta semana, a ADRA tem oferecido serviços de lavanderia móvel e de desinfecção para pessoas alojadas em um centro de cuidados temporários de Buenos Aires. Duas unidades móveis, cada uma contendo duas máquinas de lavar e duas secadoras, estão em operação no bairro Tecnópolis (leia mais aqui).

CONSULTORIA ON-LINE

Outra frente de trabalho da igreja durante a pandemia é a assistência que estudantes de Ciências Contábeis e Administração do Unasp irão oferecer neste domingo (21) para quem ainda não acertou as contas com o Leão. O projeto acontece há 11 anos, mas teve que ser adaptado para o contexto da pandemia. Em 2020, eles irão atender por videoconferência, ajudando os contribuintes a preencher e enviar a Declaração do Imposto de Renda (saiba como ter acesso ao serviço aqui).

DATAS COMEMORATIVAS

Site da Igreja de Gaspar Alto lançado por ocasião do 125º aniversário da primeira congregação adventista organizada no Brasil

No dia 15 de junho, a primeira igreja adventista do Brasil, fundada em 1895 por famílias de imigrantes alemães na região de Gaspar Alto, no município catarinense de Gaspar, completou 125 anos. Em uma comemoração atípica, por videoconferência, descendentes dos pioneiros e o pastor Ted Wilson, líder mundial dos adventistas, relembraram o legado dessa congregação que continua ativa. Na ocasião, a comunidade também recebeu um presente virtual: um site que vem se somar ao museu que fica ao lado do templo. Agora será possível fazer um tour pelo acervo virtual, que reúne informações e fotos históricas.

Outra data que não passou em branco foi o 25º aniversário do Ministério da Mulher na América do Sul. Reconhecendo o trabalho da ala feminina da igreja, a sede administrativa adventista para os estados do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro lançou um livro que traz o perfil de 25 brasileiras de diferentes regiões e classes sociais que deram uma contribuição significativa para a igreja. O objetivo da obra intitulada História Além dos 25 é inspirar e motivar outras mulheres para a missão. Para fazer o download do e-book, clique aqui.

CORTES NO ORÇAMENTO

Aumento do desemprego, queda nas entradas de dízimos e ofertas, desaceleração da economia global, desvalorização de moedas em relação ao dólar … Esses e outros indicadores devem impactar as finanças da igreja pelos próximos dois anos pelo menos. A previsão é de Juan Prestol-Puesán, tesoureiro da sede mundial da denominação. Diante do cenário de recessão e incerteza, a igreja tomou um importante voto na última terça-feira (16).

O escritório da sede mundial adventista prevê um corte de 7% nas despesas operacionais e administrativas da Associação Geral. No caso das despesas com viagens, o plano é reduzir os custos pela metade. Essa medida emergencial deve gerar uma economia de aproximadamente 5,5 milhões de dólares em relação ao valor que havia sido orçado para 2020 (saiba mais aqui).

Fornecer computadores para crianças que estão tendo dificuldade de acesso ao ensino à distância no período de isolamento social tem sido outra forma de assitência oferecida pela agência humanitária da igreja no contexto da pandemia. Foto: ADRA

Por outro lado, recursos têm sido canalizados para atender diferentes necessidades das pessoas que sofrem mais com os reflexos da pandemia. Na Eslovênia e em outros países europeus, a ADRA tem fornecido computadores para crianças pobres com dificuldades de acompanhar as aulas a distância durante a quarentena. Já nas ilhas Fiji, igrejas locais estão distribuindo cestas básicas para famílias que ficaram desempregadas por causa da crise econômica provocada pela pandemia. E no continente sul-americano, a Universidade Adventista do Chile (UNACH) foi destaque na imprensa local por capacitar mulheres que são chefes de família e dependem da venda de produtos para sobreviver. Por meio de programa, elas estão recebendo noções de marketing que podem ajudá-las a enfrentar os desafios do cenário atual (leia mais aqui).

REFLEXOS PARA A LIBERDADE RELIGIOSA

É provável que, em alguns lugares, a pandemia do novo coronavírus também traga reflexos concretos e no curto prazo para a liberdade religiosa. No Brasil, por exemplo, um parecer do Conselho Nacional de Educação, homologado pelo MEC, autorizou as escolas a reporem aos sábados aulas perdidas por causa da pandemia.

Tendo em vista esse e outros possíveis desdobramentos da crise sanitária, a deputada estadual Damaris Moura propôs uma emenda ao Projeto de Lei 350/2020, que estabelece medidas emergenciais para o período de calamidade pública desencadeada pela Covid-19. O capítulo elaborado pela parlamentar adventista assegura a alunos de instituições públicas e privadas do Estado de São Paulo, em todos os níveis de ensino, bem como a servidores públicos, o direito à prestação alternativa.

Em apoio à emenda, membros da igreja apresentaram à Alesp uma petição pública on-line que já conta com quase 11 mil assinaturas. Essa mobilização foi um fator decisivo para que fosse incluído no PL 350 um capítulo específico sobre direito de crença. O projeto de lei inédito foi aprovado no dia 16 de junho pelo Legislativo e agora depende da sanção do governador.

RELATÓRIO GLOBAL

Pensando em divulgar as ações da igreja, o departamento de Comunicação da sede mundial da igreja preparou uma revista eletrônica com uma síntese do que tem sido feito nas treze regiões administrativas da denominação no mundo. Disponível por enquanto apenas em inglês, a publicação dá um panorama dos projetos, ações, materiais e programas promovidos pela denominação no contexto da crise sanitária. Clicando nos links disponibilizados no relatório também é possível saber mais sobre essas iniciativas. Acesse a revista eletrônica aqui.

APOIO AOS REFUGIADOS

E se você quer saber como a ADRA sul-americana tem atendido milhares de pessoas que são forçadas a deixar suas casas, vale a pena conferir a reportagem que o Portal Adventista publicou nesta sexta-feira, tendo em vista o Dia Mundial do Refugiado (20 de junho). Segundo a agência da ONU responsável por essa área (ACNUR), em 2020, a crise de refugiados e migrantes venezuelanos deve ser considerada a segunda maior no planeta, ficando atrás, por pouco, da Síria. Desde que esse fluxo migratório se intensificou, a agência humanitária já ajudou mais de 840 mil pessoas por meio de 51 projetos no território da América do Sul. Conheça alguns deles no vídeo a seguir.

MÁRCIO TONETTI é editor associado da Revista Adventista (Com reportagem de Alexis Villar, Ángela Arias, Daniel Gonçalves, Fabiana Lopes, Gabriel Díaz, Maryellen Fairfax, Silvia Tapia, Vanessa Arba e Wendel Lima)

OUTRAS IMAGENS DA SEMANA

Lavanderia itinerante atende comunidades da Argentina durante a pandemia. Foto: ADRA

 

Voluntária da Igreja Adventista Ferntree Gully, em Victoria, na Austrália, ajuda a separar alimentos para distribuição às famílias que sofrem com os reflexos econômicos da pandemia no país. Foto: ADRA Austrália e Adventist Record

Veja também

O poder da influência

O fenômeno dos influenciadores chegou às igrejas. Isso é bom ou ruim?