Igualdade e justiça

Liderança mundial adventista vota documento sobre diferentes formas de segregação racial

Márcio Basso Gomes
Imagem: Adobe Stock

Já se passaram quatro meses desde a morte de George Floyd, afroamericano que foi cruelmente asfixiado por um policial branco em Minneapolis depois de ser acusado de usar dinheiro falso num supermercado. Mas o caso repercute até hoje e se tornou símbolo da luta contra a nova onda de segregação racial nos EUA.

O clamor por igualdade e justiça que paira não só na América do Norte, mas no mundo, levou o comitê administrativo da sede mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia a votar, no dia 15 de setembro, um documento sobre racismo, etnocentrismo, tribalismo e sistemas de castas. Nele, a denominação reafirma sua posição a respeito desses problemas complexos e estruturais.

O primeiro parágrafo do texto de duas páginas diz o seguinte: “O dever moral de declarar princípios bíblicos no tratamento com outros seres humanos ­tornou-se primordial à medida que o mundo reconhece cada vez mais o flagelo persistente da injustiça racial, dos conflitos tribais e do preconceito do sistema de castas que afeta milhões de pessoas em todas as sociedades e regiões do mundo. […] Nosso compromisso flui de nossa missão de pregar o evangelho de Jesus Cristo ‘a cada nação, tribo, língua e povo’ em nosso mundo conturbado, pois reconhecemos que somente Cristo pode mudar o coração humano.”

Ella Simmons, uma das vicepresidentes mundiais da Igreja Adventista e responsável pela redação do documento, enfatiza que a declaração enxerga a discriminação como um problema global.

Ganoune Diop, diretor mundial do Departamento de Relações Públicas e Liberdade Religiosa da Igreja Adventista, destaca que uma declaração como essa ganha relevância num contexto de crescente luta contra o racismo. Ele lembra que o conceito de igualdade está no DNA da Igreja Adventista do Sétimo Dia e que o desafio é viver de acordo com esse ideal.

Infelizmente, falar sobre o racismo ainda causa certo mal-estar. E, para Josué Pierre, advogado e conselheiro da Associação Geral, por essa razão muitas vezes o tema é evitado, inclusive dentro da igreja. “Alguns concluem que essas conversas não são mais do que um exercício sem sentido que distraem a igreja de sua missão”, ele observa. Contudo, Pierre argumenta que, para ser relevante em sua missão de pregar o evangelho, os adventistas precisam discutir e combater o problema.

Na declaração intitulada “Uma Humanidade: Declaração de Relações Humanas Abordando Racismo, ­Sistema de Castas, Tribalismo e Etnocentrismo”, a liderança da igreja expressa que usar a “cor da pele, local de origem, casta ou linhagem como pretexto para comportamento opressor e dominante” é negar “nossa humanidade compartilhada”. “Deploramos toda essa agressão e preconceito como uma ofensa a Deus”, diz o documento.

Para ler a versão original da declaração sobre racismo, etnocentrismo, tribalismo e sistema de castas (disponível, por enquanto, apenas em inglês), clique aqui 

Por outro lado, a liderança mundial da igreja reconheceu que muitos membros falharam em defender a verdade bíblica sobre a igualdade de todas as pessoas. “Ao contrário dos ensinamentos e do exemplo de Jesus, muitos crentes e organizações da igreja absorveram ideias pecaminosas e desumanizantes sobre a valorização racial, tribal, de casta e étnica que levaram às práticas que feriram a família humana. Essas formas de pensar e as práticas delas decorrentes minam as próprias verdades que nos comprometemos a viver e a ensinar. Pedimos desculpas por não termos falado nem agido com ousadia no passado sobre esses assuntos”, ressalta o documento.

Ao mesmo tempo, a declaração oficial procura reafirmar o compromisso da denominação em promover a paz e ser agente de reconciliação numa sociedade dividida.

MÁRCIO BASSO GOMES é jornalista e produtor dos boletins semanais em vídeo da ANN (Adventist News Network) em português e espanhol

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