Arautos do juízo final

O que os pioneiros adventistas entendiam ser as três mensagens angélicas e como essa compreensão foi aperfeiçoada posteriormente

Alberto R. Timm
Ilustração: Brett Meliti

Na primeira metade do século 19, o racionalismo moderno intensificou seus ataques contra a fé cristã. Enquanto os ventos da Revolução Francesa divinizavam a razão humana, a biologia evolucionista considerava a natureza como criadora de si mesma. E, por sua vez, os deístas retratavam Deus como alguém que não intervinha nos assuntos humanos.

Para os críticos históricos, a Bíblia estava cheia de mitos e ­imprecisões religiosas e as profecias bíblicas eram meramente um estilo literário sem nenhuma relação com o presente. Os pós-milenialistas sugeriam que o reino de Deus seria estabelecido na Terra por meio de reformas sociais. E Deus e Sua Palavra foram totalmente questionados.

Nesse contexto desafiador, a arqueologia bíblica iniciou sua jornada para confirmar a historicidade da Bíblia. E as três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-12 chamaram a atenção do mundo, advertindo a humanidade sobre os julgamento iminente de Deus e Sua oferta de salvação.

O propósito deste artigo é fornecer um breve panorama da compreensão adventista inicial dessas mensagens e dos refinamentos posteriores dessa compreensão.

COMPREENSÃO INICIAL

Segundo Thomas Scott, no livro The New Testament of Our Lord and Saviour Jesus Christ: Translated From the Original Greek, With Original Notes, and Practical Observations (Bellamy and Roberts, 1791), a tendência dos expositores protestantes do fim do século 18 e início do século 19 era ver os três anjos de Apocalipse 14 como “arautos emblemáticos da reforma progressiva do papado”. Enquanto alguns autores consideravam a missão desses anjos já cumprida, outros a viam como ainda em andamento.

Por sua vez, Guilherme Miller e seus seguidores ficaram cada vez mais convencidos de que a missão do grande movimento do segundo advento era proclamar a mensagem do primeiro anjo advertindo o mundo sobre a hora do juízo (Ap 14:7). Alguns milleritas acreditavam que a pregação do segundo anjo havia começado no verão de 1843 com o famoso sermão de Charles Fitch, intitulado: “Saiam dela, povo Meu” (Ap 18:4; cf. Ap 14:8). Contudo, os milleritas não deram muita atenção à mensagem do terceiro anjo.

Após o desapontamento de 1844, os adventistas guardadores do sábado presumiram que as mensagens dos dois primeiros anjos já haviam se cumprido por meio dos mileritas e que o movimento que então emergia tinha que pregar apenas a terceira mensagem angélica (Ap 14:9-12).

José Bates, em seu panfleto Second Advent Way Marks and High Heaps (Benjamin Lindsey, 1847), demonstrou como a pregação sequencial dessas mensagens revelava os componentes doutrinários básicos da mensagem adventista. Conforme demonstrei em minha tese doutoral, O Santuário e as Três Mensagens Angélicas (Unaspress, 2002), nos anos seguintes os adventistas guardadores do sábado revisaram e fortaleceram ainda mais seu sistema doutrinário, integrando-o com temas fundamentais, como o santuário de Daniel 8:14 e as três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-12.

Em 1858, Ellen White retratou essas mensagens como os três passos de acesso à plataforma sólida da verdade presente. E ela observou que dois grupos subiam essa escada. O primeiro era formado pelos que haviam passado pela experiência dos mileritas e dos primeiros adventistas guardadores do sábado, ou seja, pessoas que haviam aceitado as mensagens como originalmente pregadas. E o segundo era composto por pessoas que mais tarde subiriam as escadas sem ter participado da proclamação inicial dessas mensagens (Spiritual Gifts, v. 1, p. 168 e 169).

Essa ilustração ajudou a consolidar a ideia de que, embora as três mensagens angélicas tivessem sido pregadas originalmente de modo sequencial, todas as três deveriam ser proclamadas simultaneamente.

APERFEIÇOAMENTO POSTERIOR

Os adventistas guardadores do sábado viram a proclamação das três mensagens angélicas como o desdobramento de todo o sistema da verdade presente. Duas expressões dessas mensagens receberam atenção especial no início do movimento. A primeira foi “pois é chegada a hora do Seu juízo” (Ap 14:7, ARA), considerada uma alusão à fase pós-1844 do ministério sacerdotal de Cristo no santuário celestial (cf. Dn 7:9-14; 8:14).

E a outra expressão era “os mandamentos de Deus” (Ap 14:12), com ênfase na permanência do decálogo e na restauração do sábado do sétimo dia como o dia de guarda. Esse ponto de vista foi fundamentado na convicção de que a justificação pela fé não invalida a lei de Deus (Rm 3:31).

Ocorre que, ao longo dos anos, os adventistas têm se considerado os “santos” que “guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14:12). Eles até associam várias de suas crenças a esses dois assuntos doutrinários. Por exemplo, após a visão de Ellen White em 1863 sobre a reforma da saúde, os princípios básicos de um estilo de vida saudável foram considerados expressões desses mandamentos.

E, depois da assembleia da Associação Geral de 1888, em Minneapolis (EUA), a doutrina da justificação pela fé foi vista como parte essencial da “fé em Jesus”. Essa concepção promoveu na pregação do “evangelho eterno” uma abordagem mais centrada em Cristo no contexto da hora de Seu julgamento (Ap 14:6, 7).

As três mensagens angélicas de Apocalipse 14 provavelmente sejam o conjunto mais rico e abrangente dos vislumbres doutrinários, no Apocalipse, e até mesmo em toda a Bíblia

Vale destacar também que, de acordo com a obra Our Firm Foundation (Review and Herald, 1953), v. 1, p. 543-622, na Conferência Bíblica de 1952, em Takoma Park, Maryland (EUA), F. D. Nichol apresentou um documento perspicaz, no qual forneceu uma lista útil de doutrinas e previsões proféticas estabelecidas nessas mensagens. Mais recentemente, autores e pregadores adventistas estão dando ênfase renovada à tônica criacionista da primeira mensagem angélica (Ap 14:7).

Os estudiosos adventistas reconheceram que a expressão “adorai Aquele que fez o céu, e a terra, e o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7) não reflete primariamente o relato da criação do Gênesis, mas sim o quarto mandamento do decálogo (Êx 20:11).

As três mensagens angélicas de Apocalipse 14 provavelmente sejam o conjunto mais rico e abrangente dos vislumbres doutrinários no Apocalipse, e até mesmo em toda a Bíblia. Não é de admirar que, em 1903, Ellen White falou que essas mensagens eram “as mais solenes verdades já confiadas a mortais” e que a proclamação delas era “uma obra da mais solene importância” (Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p 19).

Portanto, conforme a declaração de missão da Igreja Adventista do Sétimo Dia, atualizada em outubro de 2018, nossa tarefa é “fazer discípulos de Jesus Cristo que vivam como Suas testemunhas amorosas e proclamem a todas as pessoas o evangelho eterno das três mensagens angélicas, em preparação para Seu breve retorno (Mt 28:18-20; At 1:8; Ap 14:6-12)”.

Se as mensagens de Apocalipse 14 eram tão importantes para os primeiros adventistas guardadores do sábado e para as gerações seguintes de adventistas, não deveriam essas mensagens ser ainda mais relevantes para nós, que estamos muito mais próximos da segunda vinda de Cristo? Vamos acreditar nessas mensagens e proclamá-las corajosamente, porque elas são essencias também para o mundo de hoje.

ALBERTO TIMM é diretor associado do Patrimônio Literário de Ellen G. White na sede mundial da igreja

(Artigo publicado na edição de outubro de 2020 da Revista Adventista / Adventist World)

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