Imutável e relevante

Uma conversa sobre o significado do “evangelho eterno” e das três mensagens angélicas de Apocalipse

Gerald Klingbeil
Foto: Instituto de Pesquisa Bíblica (BRI, na sigla em inglês)

Todo mês de outubro é uma oportunidade especial de os adventistas refletirem sobre a experiência que fundou nossa tradição religiosa: o desapontamento de 22 de outubro de 1844. Distantes no tempo 176 anos dessa data, nós ainda nos ligamos aos mileritas, pioneiros adventistas e às gerações que nos antecederam porque enxergamos nas três mensagens angélicas (Ap 14:6-12) nossa identidade e missão.

É sobre o conteúdo, a importância e a atualidade desse elemento doutrinário fundamental do adventismo que dois teólogos conversaram. A seguir, reproduzimos uma versão sintetizada da entrevista de Gerald Klingbeil, editor associado da Adventist World, com Ángel Manuel Rodríguez, ex-diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica da sede mundial da igreja.

Provavelmente os adventistas estejam bem mais familiarizados com a expressão “três mensagens angélicas” do que os demais cristãos. O que são essas mensagens e qual é a importância delas?

Para os adventistas essa frase é muito significativa, pois nossas raízes se encontram na profecia apocalíptica. Em resumo, acreditamos que o texto de Apocalipse 14:6-12 seja a última mensagem de Deus para a humanidade.

Hoje há uma renovada ênfase nas três mensagens angélicas. Por quê?

É bom reler a Bíblia, porque possivelmente encontraremos nela novas ideias e descobriremos novas maneiras de expressar a mesma verdade. Creio que temos nos voltado para as três mensagens angélicas porque essa é uma das passagens bíblicas que precisamos manter vivas na mente dos adventistas. Por causa da importância dessas verdades, precisamos falar sobre elas constantemente. Caso contrário, elas perderão seu significado para nós. Por isso, acho que devemos falar sobre esse assunto com a maior frequência possível.

Se olharmos a teologia adventista como um todo, que lugar as três mensagens angélicas ocupam?

Elas são parte dos ensinos da igreja e formam uma totalidade que não pode ser desmembrada. Contudo, cremos que o centro da doutrina e do pensamento teológico adventista é Jesus. Não há outro caminho. O que as doutrinas nos revelam são novas facetas de Cristo e de Seu plano para nós. Portanto, quando lemos Apocalipse 14:6-12, percebemos que muitas de nossas doutrinas estão direta ou indiretamente nesse texto, a começar pelo próprio verso 6, no qual aparece o termo que é o eixo das três mensagens angélicas: o “evangelho eterno”. Além disso, vale destacar que há dois elementos-chave integradores na teologia adventista. O primeiro é a doutrina do santuário celestial. Sem dúvida, ela é extremamente importante na Bíblia, porque é sobre Jesus, Sua natureza, Sua função, Sua morte na cruz e Seu ministério como Mediador. Se ela não integrar nosso sistema de crenças, o que mais o faria? O segundo elemento são as três mensagens angélicas. Essas mensagens, juntamente com a doutrina do santuário, ligam os elementos teológicos do adventismo, cuja “moldura” é o grande conflito entre o bem e o mal. Logo, qualquer teólogo adventista precisa levar em conta esses elementos distintivos ao produzir sua teologia.

Esse evangelho é diferente do que Jesus, os apóstolos ou os demais cristãos pregaram?

O fato de ele ser chamado de eterno me leva a entender que foi concebido na mente de Deus desde a eternidade. Esse propósito divino para a humanidade é o que Paulo chamou de o grande “mistério” que esteve escondido por séculos e séculos, mas que, nos dias do apóstolo, havia sido revelado em Jesus (Ef 3:9). Esse evangelho estava na mente de Deus e Ele quer implantá-lo em nossa mente e vida. Ele é eterno porque sempre foi Seu plano para nós. Além de eterno, esse evangelho é imutável e sempre relevante.

Gostei do que você acabou de dizer, de que esse evangelho é imutável e sempre relevante. Poderia então resumir em poucas frases o que cada uma das três mensagens angélicas tem a dizer?

Sobre a primeira mensagem, quando as pessoas se confrontam com o evangelho da salvação, o Senhor as convida a temê-Lo, honrá-Lo e adorá-Lo, o que significa realizar com Ele um pacto, cuja nossa parte é responder à Sua graça com arrependimento e lealdade. Isso é relevante principalmente no contexto em que vivemos, que é marcado por apostasia, secularismo e ateísmo. A segunda mensagem também é uma boa notícia, pois se trata do anúncio da queda do inimigo. Quem tem sua derrota anunciada é a confederação dos poderes políticos e religiosos que estão em oposição a Deus (Babilônia). Por fim, a terceira mensagem também é maravilhosa. É o coração de Deus se abrindo para nós e dizendo: “Escolham a Mim, escolham a Mim, porque, se vocês forem leais às forças do mal, seu destino será a morte eterna. Portanto, não façam isso!” A linguagem é forte, porque estamos, por assim dizer, à beira do abismo, e Deus está gritando: “Não dê nem um passo a mais. Volte!”

Ángel, acho que você deve ter sido um evangelista.

Os pastores sempre são evangelistas (risos).

Se considerarmos o movimento milerita e toda a história da Igreja Adventista, as três mensagens angélicas já são pregadas há mais de 175 anos. Será que nossa pregação mudou?

As três mensagens angélicas foram lidas por cristãos que vieram antes de nós. Alguns as aplicaram ao trabalho de Lutero e Calvino. Porém, os mileritas entenderam que elas tratavam da própria experiência deles. Por sua vez, os pioneiros adventistas, por meio do estudo das Escrituras, encontraram nessa mensagem sua identidade e missão. E elas permaneceram como parte integrante da nossa responsabilidade em relação ao mundo.

Como comunicar essa herança espiritual para as novas gerações de adventistas?

O desafio dos adventistas em relação a isso é semelhante ao de outras denominações, pois muitos jovens cristãos abandonam a igreja quando terminam o ensino médio ou estão cursando a faculdade. Como podemos comunicar melhor para essa geração um elemento tão importante da teologia adventista? A resposta para essa questão é complexa. Contudo, acho que uma das coisas que precisamos fazer seja conscientizar os jovens a respeito do conteúdo e do significado dessas mensagens. E isso pode ser feito de modo mais eficaz se for apresentado na forma de uma narrativa que apresente o tema como parte de um conflito cósmico. Aliás, se há algo em que acredito, é que todos os seres humanos gostam de histórias. Talvez o problema seja que costumamos contar a “grande narrativa” que temos ­dividindo-a em doutrinas desconexas. Por outro lado, creio que, se contássemos nossa grande história para os jovens com entusiasmo e consistência, eles seriam envolvidos por ela e desafiados a tomar parte nesse enredo. Eles talvez dissessem: “Uau, isso é incrível!”

E quais respostas o evangelho eterno tem para os jovens do século 21, especialmente para os que vivem no Ocidente secularizado?

 Posso mencionar algumas coisas. Suponho que “relevância”, uma palavra tão em destaque hoje, tenha que ver com importância. Bem, para que eu identifique o que é importante para os jovens, preciso conversar com eles, a fim de descobrir suas reais necessidades. Apesar de só eles conhecerem bem suas próprias necessidades, creio que existam questões mais profundas que afetem toda a humanidade. Por exemplo, “por que estamos aqui?” é uma grande pergunta que as três mensagens angélicas ajudam a responder. Essas mensagens também respondem onde Deus está. Sendo assim, creio que tudo isso esteja conectado com viver nossa esperança. As três mensagens angélicas apresentam a esperança da salvação já realizada na obra de Cristo e apontam para a consumação da esperança, hoje ainda na forma de promessa, mas que se concretizará na segunda vinda de Jesus. E tudo isso pode ser comunicado com amor, de coração aberto, especialmente para jovens que estão desorientados e buscando o sentido da vida.

(Entrevista publicada na edição de outubro de 2020 da Revista Adventista / Adventist World)

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