Hora do voto

Qual deve ser a postura dos adventistas em relação à política e às eleições?

Crédito da imagem: Adobe Stock

Mais uma vez estamos próximos a um período de eleições no Brasil. À medida que vai chegando a data, a tensão costuma crescer e as discussões se tornam mais acaloradas. Essa também é uma época oportuna para relembrar alguns conselhos bíblicos e o posicionamento da Igreja Adventista sobre o assunto.

No documento “Os Adventistas e a Política”, votado no Concílio Anual da Divisão Sul-Americana em novembro de 2017 e revisto em agosto de 2020, encontram-se várias recomendações que esclarecem a posição da igreja a esse respeito. Logo na introdução pode-se ler sobre seu objetivo: “servir como um guia conciso e unificado sobre o pensamento da igreja quanto às questões políticas”. O documento não foi preparado para “substituir os conselhos divinos, mas sim expressar claramente a compreensão que a igreja tem no momento acerca do relacionamento institucional com os poderes públicos e os assuntos políticos, bem como os deveres de seus membros como cidadãos”.

Dentre os pilares que sustentam a postura da Igreja Adventista em relação aos assuntos públicos destacam-se a liberdade religiosa inclusiva e a convicção da separação entre Igreja e Estado. A liberdade de religião para todos dá testemunho da crença em um Deus criador de quem emanam os dons preciosos da liberdade de pensamento, consciência e escolha dados a cada ser humano. A separação entre Igreja e Estado conduz à segura posição de não filiação nem militância políticopartidária adotada pelos adventistas desde os primórdios de sua organização.

Essa posição não implica inimizade com os poderes constituídos. Antes, reconhecemos a ordem bíblica de orar “em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade” (1Tm 2:2), bem como o fato de que “não há autoridade que não proceda de Deus, e as autoridades que existem foram por Ele instituídas” (Rm 13:1).

O padrão para o qual olhamos é a pessoa de Cristo. Em O Desejado de Todas as Nações (p. 509), Ellen White escreveu: “O governo sob que Jesus viveu era corrupto e opressivo; clamavam de todo lado os abusos – extorsões, intolerância e abusiva crueldade. Não obstante, o Salvador não tentou nenhuma reforma civil. Não atacou nenhum abuso nacional, nem condenou os inimigos da nação. Não interferiu com a autoridade nem com a administração dos que se achavam no poder. Aquele que foi o nosso exemplo conservou-Se afastado dos governos terrestres. Não porque fosse indiferente às misérias do homem, mas porque o remédio não residia em medidas meramente humanas e externas.”

A igreja tem claro entendimento de que a melhor forma de cooperar com os governos é por meio da pregação do evangelho e do serviço desinteressado oferecido às comunidades em que está inserida por meio de seus múltiplos ministérios. Dessa maneira, a igreja se torna conhecida, relevante e confiável. O Senhor Jesus afirmou: “Deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12:17). Dar o que pertence a César implica também o cumprimento dos deveres próprios da cidadania, incluindo o exercício de votar.

Ao mesmo tempo em que a igreja não lança, não patrocina e nem indica candidatos, ela recomenda que seus membros votem conscientemente em pessoas que promovam e defendam os valores bíblicos praticados pelos adventistas, como os princípios da qualidade de vida e da saúde, o modelo bíblico de família, os valores éticos e morais, a liberdade religiosa e a separação entre Igreja e Estado. Esses aspectos podem se tornar um grande benefício para toda a população.

HÉLIO CARNASSALE é pastor e lidera as áreas de Liberdade Religiosa e Espírito de Profecia na sede da Igreja Adventista para a América do Sul, em Brasília (DF)

(Artigo publicado originalmente na seção Enfim da edição de novembro da Revista Adventista)

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    Pastor Hélio foi bastante objetivo e coerente com tudo o que tem sido publicado até aqui e quanto a isso creio que não restam dúvidas sobre como devemos nos posicionar dentro dos parâmetros apresentados, mas existe um ponto que eu gostaria de levantar, e que não foi abordado no artigo e que tem sido fortemente evitado na maioria das publicações oficiais de nossa igreja e que sinceramente acredito que deveria haver uma orientação por conta de que o “silêncio” da margem para muitas interpretações equivocadas.
    Podemos votar em candidatos adventistas?
    Existe algum ressalva e consequente orientação para que não votemos?
    Como cristãos, é errado buscarmos uma carreira profissional na política?
    Vou me atrever a apresentar aqui algumas posições cujo conhecimento bíblico e do espírito de profecia que possuo hoje e reconheço que são limitados e estou humildemente aberto a mudar minha visão diante de argumentos que sejam estruturado e bem embasados, mas enquanto os mesmo não aparecem, sinceramente creio que:
    1) O fato do candidato ser adventista não deveria ser considerado um fator decisivo para eu votar ou não nele, mas com certeza ao me propor a votar em um candidato adventista, preciso de ainda maior cuidado na pesquisa sobre a vida deste, pois ele será um testemunho público de grande visibilidade tanto positiva quanto negativa dependendo de como o mesmo conduza sua vida pessoal e profissional, mas creio sim que havendo candidatos adventistas, eu deveria tendenciar meus votos aos mesmos caso eu não veja uma conduta que desabone, pois ao fazer isso, estamos dando oportunidade do nome da nossa igreja, nossos princípios e valores, mas acima de tudo, a fé que professamos, será publicamente difundida em uma escala que talvez sem a presença destes políticos que compartilham de nossa fé, não seria da mesma maneira.
    2) Quanto a buscar uma carreira profissional na política, entendo o exemplo de Cristo citado no artigo, mas não podemos ignorar o fato de que a estrutura política a qual nos referenciamos neste contexto era de um governo monárquico / imperial, ou seja, não havia democracia e nem a possibilidade de um cidadão poder atuar como um servidor publico remunerado, exceto que o mesmo viesse a ser nomeado para tal posição como vemos os exemplos de José e de Daniel, por isso creio que o exemplo do Mestre é sim nossa referência, mas na prática, não temos um exemplo de Cristo em uma democracia para saber realmente como Ele se posicionaria, eu sinceramente creio que ele não seria um candidato, mas não que isso signifique que ele não se agrade ou desaprove a quem venha fazê-lo, mas creio sinceramente que o problema e o desafio para você que quer se enveredar por este caminho é, qual é a sua motivação para seguir neste caminho? o que te leva a buscar esta carreira? teus dons são os necessários e seria na política o lugar onde eles poderiam ser úteis e relevantes ao seu próximo e a DEUS? você está preparado para ser luz em um contexto tão corrompido onde talvez sua própria vida possa ser colocada em risco caso você se posicione contra as práticas ilícitas infelizmente muito comuns ali desenvolvidas? se você for capaz de responder de forma positiva e coerente com nossos princípios a estas perguntas e ainda se sentir motivado e impulsionado por DEUS a seguir este caminho, não esquece de me dizer qual é o seu número, pode ter certeza que você terá o meu voto.
    Que DEUS abençoe a TODOS!