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Criar filhos é assustador

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Como superar os temores da paternidade e maternidade?

Clair e John Sanches
Foto: Getty Images

Havíamos acabado de dar à luz ao nosso primeiro filho. Éramos pais novatos, aventureiros de primeira viagem. Por isso, foi assustador perceber que, do dia para a noite, passamos a ser responsáveis por outra vida humana. Nosso filho não conseguia se alimentar sozinho, nem fazer sua higiene. Era totalmente dependente de nós. Nesse processo percebemos que nossas ideias pré-concebidas sobre criação de filhos não eram suficientes. Precisávamos dos conselhos de outros.

Talvez os leitores que acabaram de pegar seu filho nos braços sintam-se como nós e estão se perguntando onde buscar ajuda. Conselhos de amigos e familiares mais experientes? Um curso sobre educação de filhos ou a leitura de livros sobre o tema? Ironicamente, criar um filho é o trabalho mais importante do mundo, mas é também aquele para o qual somos menos qualificados. E a missão se torna mais complexa quando uma família tem mais de um filho, pois cada criança é diferente e o que “funciona” para uma não funciona necessariamente para a outra.

A RAZÃO DO TEMOR

O que há de assustador em criar uma criança? A Bíblia descreve os filhos como um presente do Senhor (Sl 127:3). Assim, naturalmente, a educação deles gera certo nível de ansiedade nos pais. Além disso, é normal ficar ansioso e com medo neste mundo. Afinal, o planeta inteiro está tomado pela pandemia do novo coronavírus. Porém, há grande diferença entre sentir algum nível de medo e ser dominado por ele.

O que queremos é ser pais direcionados pelo amor e não tomados pela ansiedade. O que pode ser mais difícil para aqueles que têm certo tipo de temperamento, vive em lugares mais vulneráveis ou estão sob uma circunstância de maior risco. Isso é muito real, por exemplo, para famílias cujos filhos estão sofrendo bullying; para aquelas que estão temendo pela segurança dos filhos ou preocupadas se conseguirão prover a próxima refeição para eles. É muito real também para as famílias que precisaram fugir e se refugiar em outro país. Existem aqueles pais que também estão preocupados em relação ao tempo que passam com os filhos ou com o tanto de tempo que suas crianças ficam diante das telas. De modo geral, os cristãos se preocupam se seus filhos vão ou não seguir a Jesus.

QUAL É A RESPOSTA?

Então, como podem os pais criar seus filhos sem se sentirem assustados e oprimidos pela enorme responsabilidade associada a essa tarefa? Podem começar, por exemplo, dando nome aos seus receios pessoais. Escrever sobre os próprios medos e ansiedades pode nos ajudar a determinar em que ponto nossas emoções se encontram atualmente, além de contribuir para minimizar essas tensões internas. Nesse contexto, vale se perguntar: “Será que meu medo é realista? Posso fazer alguma coisa para mudar isso?”

Deus ama nossos filhos mais do que somos capazes de amar, e Ele estará sempre ao nosso lado e ao lado deles

Como cristãos, podemos levar a Deus todos os nossos sentimentos. Experimentar essa entrega nos ajuda a enxergar que, como observou Ellen White, “nosso Pai celestial tem mil maneiras de nos prover, das quais nada sabemos” (A Ciência do Bom Viver, p. 481). Confiar nossos filhos a Deus significa também nos colocarmos na posição de filhos diante do Pai, dispostos a ser ensinados por Ele. Desse modo, é possível encarar a paternidade como uma aventura na qual não estamos sozinhos.

Outro fator importante para conter a ansiedade é compartilhar nossas preocupações com nosso cônjuge ou com um amigo de confiança. Geralmente, falar com outras pessoas minimiza o estresse e nos ajuda a olhar o problema de outra perspectiva. Igualmente importante é dedicar tempo para cuidar da saúde, fazendo exercício físico, relaxando em meio ao ar puro e mantendo uma boa alimentação.

AMOR E ORIENTAÇÃO

Um dos meus ex-professores resumiu a criação dos filhos como um relacionamento com base no afeto previsível e estável, que sirva de incentivo constante para eles. As crianças precisam saber que seus pais estão do lado delas. Quando elas são respeitadas por seus progenitores, acabam aprendendo a respeitar os demais. Por isso, fale com seus filhos e mantenha um canal aberto de diálogo com eles, de modo que se sintam à vontade para expressar os próprios pensamentos e sentimentos.

Acima de tudo, mostre a eles o amor de Deus. Eles cometerão erros, mas isso não significa que vamos deixar de amá-los. O amor e a orientação também envolvem o estabelecimento de limites realistas para os filhos. Dê a eles tarefas e responsabilidades que os direcionem para uma vida saudável. Ensine-os a viver de forma ética e moral, a partir dos princípios bíblicos. Acima de tudo, a melhor maneira de preparar nossos filhos para viver bem é colocar em prática o que pregamos. Eles aprendem melhor nos observando do que apenas nos ouvindo. Ser bons pais requer amor e sabedoria. Requer também autodisciplina e comprometimento de continuar aprendendo a educá-los.

Por fim, não importa quem nossos filhos vão se tornar, lembre-se de que eles serão sempre um presente do Senhor. Por isso, somos apenas mordomos; cuidadores responsáveis que devem confiar nas promessas de Deus (Mt 11:28-30; Hb 4:15 e 16; Tg 1:5 e 6). Deus ama nossos filhos mais do que somos capazes de amar, e Ele estará sempre ao nosso lado e ao lado deles.

CLAIR SANCHES é diretora do Ministério da Criança e da Mulher da Divisão Transeuropeia da Igreja Adventista; JOHN SANCHES, seu esposo, é pastor e psicólogo clínico e forense. Eles têm dois filhos e vivem no Reino Unido

(Artigo publicado na edição de julho de 2020 da Revista Adventista / Adventist World)

Última atualização em 13 de agosto de 2020 por Márcio Tonetti.

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