Gestão responsável

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O conceito de responsabilidade ambiental, social e corporativa e seu efeito na igreja

Felipe Lemos

Crédito da imagem: Adobe Stock

O mundo se transformou radicalmente na última década. E, de ­forma particular, a mudança se intensificou desde março de 2020, com o anúncio global de uma pandemia de ­grandes proporções. Comportamentos, percepções, valores individuais e coletivos, tudo foi submetido a questionamentos mais profundos. E a discussão ainda ocorre.

Nesse contexto, um conceito emergiu rapidamente, embora seu conteúdo não seja bem uma novidade. Trata-se dos critérios com base na sigla em inglês ESG, que responde por Governança Ambiental, Social e Corporativa. Esse conjunto de boas práticas expressa preocupações com meio ambiente e sustentabilidade, questões de ordem social e governança corporativa responsável e eficaz.

No cenário internacional, existem até agências especializadas em avaliar as empresas nesses quesitos. Por exemplo, a MSCI fez uma avaliação da Tesla, que produz carros elétricos, e constatou que a companhia merece nota “A” em alguns aspectos, o que a colocaria acima da média entre 39 companhias automobilísticas. Porém, segundo os avaliadores, a badalada empresa de Elon Musk peca nas práticas trabalhistas, e o item “s” (social) rebaixa sua nota na classificação geral ESG.

O conceito de ESG apresenta relação direta com aspectos cotidianos que sempre fizeram parte da realidade humana. As pessoas são confrontadas rotineiramente com a necessidade de lidar com o lixo doméstico, encarar o consumo racional dos recursos disponíveis, ou mesmo decidir que tipo de transporte vão utilizar, com efeitos diretos sobre a poluição atmosférica. Isso somente para se manter na discussão acerca de sustentabilidade do planeta.

Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em maio de 2021 mostrou a preocupação das chamadas novas gerações com o tema. A verificação comprovou, por exemplo, que a geração Z (nascidos entre a segunda metade dos anos 1990 até início de 2010) é particularmente propensa a expressar ansiedade sobre o futuro. Entre os usuários de mídia social, quase sete em cada dez integrantes da Geração Z (69%) dizem que se sentiram ansiosos sobre o futuro na última vez em que viram conteúdo sobre a mudança climática.

O problema ambiental se traduz em dados preocupantes. Há previsões bem alarmantes no documento “Avaliação de Riscos de Mudanças Climáticas”, desenvolvido para dar subsídio aos representantes governamentais que participarão da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), marcada para ocorrer entre 31 de outubro e 12 de novembro na Escócia. O documento prevê que, “se as emissões de gases poluentes não caírem drasticamente antes de 2030, em 2040 3,9 bilhões de pessoas estarão suscetíveis a sentir grandes ondas de calor a cada ano”.

ALÉM DO AMBIENTE

A ESG, porém, não se resume a preocupações de ordem ambiental. Basicamente, a ideia é de que as organizações devem manter um olhar mais atento às implicações sobre os três aspectos que criam a sigla. Fala-se da sustentabilidade (cuidado com o meio ambiente, o “e” de environmental), dos fatores sociais (proteção de direitos humanos, diversidade e proteção do consumidor, o “s” de social) e governança corporativa (ou seja, a própria gestão das organizações em termos de confiabilidade, dilemas éticos e eficiência, entre outras coisas, o “g” de governance).

Em maio de 2021, fiz uma entrevista com Bruna Ribeiro, consultora de sustentabilidade ambiental e mestranda em Administração de Empresas, para a coluna que assino no Portal Adventista. Na ocasião, a especialista lembrou que “a própria pandemia reforçou as desigualdades e a urgência de medidas que considerem as questões sociais e ambientais”.

Há muitos dados que podem confirmar a necessidade de se pensar em aspectos sociais dentro da perspectiva ESG, mas a fome e a pobreza são realçadas por seu caráter emergencial. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em julho de 2021 mostrou agravamento da fome no planeta, em grande parte atribuído à pandemia da Covid-19. A avaliação “The State of Food Security and Nutrition in the World” aponta que metade das pessoas que enfrentam a fome (418 milhões) vive na Ásia, mais de um terço (282 milhões) na África e 60 milhões na América Latina e no Caribe.

Ainda de acordo com esse levantamento, em 2020 mais de 2,3 bilhões de pessoas (ou seja, cerca de 30% da população mundial) não tinham acesso à alimentação adequada durante todo o período. E um acréscimo: para cada 10 homens com insegurança alimentar, havia 11 mulheres nessa condição, trazendo à tona a desigualdade de gênero.

INDICADOR NO MERCADO CORPORATIVO

No Brasil, especialistas dizem que as discussões sobre ESG só chegaram há cerca de seis anos. Com a pandemia, diversos fatores acabaram sendo realçados, especialmente no mercado corporativo. Embora os conceitos de responsabilidade socioambiental e de governança sejam importantes para qualquer tipo de organização, no mercado empresarial eles se tornam um imprescindível fator competitivo.

O conceito ESG serve de parâmetro para que consumidores, clientes, fiéis e cidadãos em geral possam avaliar se determinada organização, seja privada ou pública, religiosa ou não, está atenta a essas questões. Mas não basta se dizer adepto do conceito; é essencial provar que se vivencia isso como organização.

A diretora de compliance (“conformidade”) da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, Gisela Gadelha, fez um comentário que expressa a importância de ESG para a realidade corporativa. “Os investidores buscam opções mais seguras, resilientes e sustentáveis, razão pela qual as práticas ESG se tornaram um importante diferencial competitivo na tomada de decisão”, pontuou. “Afinal, nenhum investidor quer associar sua marca a atividades que impactem de forma negativa, colocando em risco sua reputação”.

Os cristãos não devem destruir o ambiente que Deus criou, mas atuar de forma sustentável, responsável e amorosa, inclusive porque se preocupam com os mais vulneráveis, num contexto de tantas desigualdades, diferenças as oportunidades

A preocupação com transparência e procedimentos anticorrupção está mais acentuada. É um parâmetro cada vez mais importante na hora da tomada de decisão de empresas quanto aos investimentos nos países. A Transparência Internacional, organismo notabilizado por realizar esse tipo de verificação, publicou em 2021 o relatório referente ao ano anterior. O Índice de Percepção da Corrupção criado pela ONG avalia 180 países e territórios e atribui notas entre zero (país percebido como altamente corrupto) e 100 (país percebido como muito íntegro). Segundo a última avaliação, a maioria dos países fez pouco ou nenhum progresso no combate à corrupção em quase uma década, e mais dois terços têm pontuação abaixo de 50. A nota do Brasil é 38, abaixo da média mundial (43).

A reputação mencionada por Gisela é um conceito totalmente ligado à ESG e representa uma construção com base em uma via de mão dupla. Há, por um lado, aquilo que as organizações (inclusive igrejas) dizem que são e fazem. Por outro lado, existe a percepção do público. Reputação é a permanente combinação entre o que prometemos que somos e o que realmente entregamos ou demonstramos de forma prática. O que está em pauta é consistência ou coerência.

CONTEXTO RELIGIOSO

Ilustração: Adobe Stock

Fica evidente, portanto, que as empresas veem nas três letras do conceito ESG um ativo essencial para que sejam consideradas dignas de confiança dos clientes. Agora faça o exercício de se demorar em uma questão adicional: e no caso das religiões? Será que as igrejas também precisam estar sintonizadas com as necessidades ao seu redor por sua própria razão de ser? Quanto essa sintonia pode reverter em credibilidade e confiabilidade diante das pessoas? A resposta dos analistas é que essas práticas são responsabilidade de todos. Ou seja, as organizações religiosas também precisam fortalecer essa visão.

No âmbito religioso, há alguns movimentos nesse sentido. Um deles foi o documento Laudato Si’, emitido pelo papa Francisco em maio de 2015. A encíclica critica o consumismo e oferece a perspectiva da teologia católica acerca do cuidado com o meio ambiente e pede o empenho da sociedade para tal tarefa. Entre protestantes europeus há iniciativas relacionadas a um domingo verde.

Essas iniciativas religiosas são merecedoras de um olhar analítico e crítico, especialmente pela agenda dos atores envolvidos. Mas expressam preocupações pertinentes e capazes de oferecer um diagnóstico que seja compatível com a realidade.

Na área social, há crescentes direcionamentos para que sejam estabelecidos mais diálogos entre os religiosos e os movimentos de direitos humanos e lutas por justiça social.

PONDERAÇÕES BÍBLICAS

Em certos aspectos, as ideias hoje sistematizadas na defesa do ESG encontram paralelo no texto da Bíblia Sagrada há milênios. De diferentes maneiras, nela é apresentada a necessidade de os cristãos se envolverem com o cuidado do meio ambiente, a busca por reduzir o sofrimento do outro e promover uma gestão ética.

Uma declaração oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia datada de julho de 1995 fez eco ao livro de Gênesis ao defender o cuidado com o meio ambiente. O início do documento já atesta que “os adventistas do sétimo dia creem que a espécie humana foi criada à imagem de Deus, assim representando a Deus como Seus mordomos, para dominar o ambiente natural de maneira fiel e frutífera”.

Da mesma forma, a preocupação social salta aos olhos diante das instruções divinas na Bíblia sobre cuidado da terra e atendimento ao pobre, às viúvas e aos órfãos. Isso sem falar na necessidade de promover remuneração digna, respeito a quem trabalha, e a difusão de um sólido princípio de respeito à dignidade humana, o que envolve a não aceitação de qualquer forma de discriminação. Trechos dos livros de Gênesis (1:28), Levítico (25), Deuteronômio (15:11) e Isaías (58) confirmam esta argumentação. Sem falar na atenção aos estrangeiros (que hoje poderiam se encaixar, também, como os refugiados) presente em textos como Êxodo 22:21, Levítico 19:34 e Deuteronômio 10:19.

No Novo Testamento, a preocupação com ­questões sociais é motivo, por exemplo, de declarações de Jesus, como se pode ver em Mateus 25:31-46 (no contexto do grande julgamento), ou na própria instituição do diaconato (Atos 6:1-7). E de apóstolos como Paulo e Tiago (Ef 2:19; 1Tm 3:1, 2; Tg 1:27).

Se o assunto é governança responsável, então há muito o que aprender. O conceito de liderança organizada e comprometida com uma atitude correta diante de todos os públicos é totalmente identificada na narrativa bíblica. Basta ler os livros de Juízes, Reis (1 e 2), Crônicas (1 e 2), Esdras, Ester e Neemias para se ter uma ideia disso. Há boas e más referências de líderes no livro sagrado do cristianismo. Porém, Deus demonstra um ideal de liderança que envolve, essencialmente, profunda dependência Dele e harmonia com os princípios e ensinos por Ele orientados.

ATITUDE DA IGREJA

É bem verdade que o mercado corporativo talvez tenha aderido, em parte, ao conceito ESG como uma oportunidade de alavancar vendas e fazer crescer a lucratividade das companhias. Já existe, inclusive, uma ideia em relação à falsa prática de sustentabilidade chamada “maquiagem verde” ou “lavagem verde” (greenwashing). É a tentativa de criar uma estratégia comunicacional e de marketing artificial para fazer parecer que determinada empresa seja comprometida com processos ambientalmente corretos, quando tal aparência não se traduz em atitudes e mudanças culturais genuínas.

O impulso dos cristãos não procede de ganhos financeiros com as práticas do ESG. É o amor a Deus e ao próximo que move as pessoas a cuidar do lugar em que habitam e das pessoas. Para o teólogo John Stott, “os cristãos têm uma base mais saudável para servir a outros seres humanos. Não é por causa do que podem tornar-se no futuro desenvolvimento especulativo da raça, mas por causa do que já são em virtude da criação divina” (O Cristão em uma Sociedade não Cristã [Thomas Nelson, 2019], p. 55).

Ellen White, pioneira inspirada do adventismo, escreveu diversos capítulos em suas dezenas de livros sobre o papel social dos cristãos. E mais do que isso: ela promoveu conceitos que se chocaram frontalmente com mazelas da sua época e de hoje, como a escravidão, o desrespeito à mulher, o preconceito racial, o desprezo à educação e hábitos de saúde nocivos.

Na ótica histórica adventista, as pessoas cumprem a vontade de Deus quando cuidam do meio ambiente na condição de administradores fiéis. A preservação ambiental não é uma tentativa de criar uma boa imagem pública, ou uma forma de garantir um planeta longevo por milhares de anos; é a capacidade de compreender que seres formados por um Deus de amor não destroem o que Ele criou, mas atuam de forma sustentável, até porque se preocupam com os mais vulneráveis. O cuidado ambiental é um ato solidário diante de tantas desigualdades, diferenças e oportunidades.

As ideias que compõem o conceito ESG podem ser encontradas nos escritos de Ellen White. Embora não seja possível afirmar que ela teria sido uma ativista, algumas partes dos seus livros indicam uma preocupação nítida em relação aos cuidados com o meio ambiente, sempre em associação com um estilo de vida saudável, o que caracteriza a mensagem identificada com o adventismo desde seus primórdios. Por exemplo, no livro A Ciência do Bom Viver (p. 365), a profetisa afirmou: “O ambiente material das cidades constitui muitas vezes um perigo para a saúde. O estar constantemente sujeito ao contato com doenças, o predomínio de ar poluído, água e alimento impuros, as habitações apinhadas, obscuras e insalubres, são alguns dos males a enfrentar.”

Quanto às questões sociais, especialmente o cuidado com os pobres e a necessidade de respeito à dignidade humana, Ellen White oferece uma gama significativa de afirmações em seus livros. Ela destaca que a obra social faz parte essencial da natureza da igreja. No livro Beneficência Social (p. 74), ela comentou que “a obra de recolher o necessitado, o oprimido, o aflito, o que sofreu perdas, é justamente a obra que toda igreja que crê na verdade para este tempo devia de há muito estar realizando”.

Questões que ainda permanecem atuais e estão incluídas na perspectiva das práticas de ESG, como o combate ao racismo, fizeram parte da realidade histórica adventista. Segundo o teólogo e doutorando em história Kevin Burton, os pioneiros adventistas foram objetivamente contrários às práticas escravagistas típicas do tempo em que viveram (século 19) e agiram publicamente por meio de petições em favor da abolição da escravatura. Burton arremata dizendo que “os pioneiros adventistas do sétimo dia lutaram contra a opressão por meio de sua fé e ações durante uma época em que apenas uma pequena minoria de americanos protestou contra o racismo”.

Alguns argumentam que esse movimento seria uma forma de crença religiosa que tem como aspecto principal o desejo humano de promover a justiça a partir da luta contra a opressão, como se ela fosse a causa de todo o mal e não consequência. No entanto, o fato de os males sociais terem sua origem última na realidade do pecado não significa que devamos deixar de reconhecer os problemas estruturais da sociedade.

A governança, como ativo reputacional, está conectada à ideia de se criar sistemas, mecanismos, processos e controles para garantir que as normas e condutas éticas sejam parte intrínseca da vida de uma organização empresarial. Sem dúvida, o cristianismo e o adventismo jamais poderiam renunciar a valores como esses na gestão das instituições religiosas e na própria vida de cada crente.

O tema é complexo e extenso. Por isso, aqui não foram esgotadas todas as análises possíveis. O mais importante é a convicção de que, para os cristãos, o conceito ESG não deveria ser uma moda passageira, uma preocupação no nível da mera abstração ou ainda uma busca por interesses financeiros. O respeito ao ambiente e ao outro sempre foram defendidos pelo cristianismo, inclusive pelo adventismo. Precisamos aprofundar essas práticas, incentivando o cuidado com o ambiente, valorizando a responsabilidade e a transparência em nossas organizações e investindo no aspecto social.

FELIPE LEMOS é jornalista, mestre em Comunicação nas Organizações e gerente da assessoria de comunicação da sede sul-americana da Igreja Adventista, em Brasília (DF)

(Matéria de capa da edição de novembro de 2021 da Revista Adventista)

Última atualização em 30 de novembro de 2021 por Márcio Tonetti.

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