Ministério sobre as águas

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A obra médico-missionária está a bordo das lanchas que singram as águas do Amazonas há 90 anos

O trabalho das lanchas Luzeiro não parou mesmo no contexto da pandemia. Ao contrário, a missão de levar saúde e esperança ganhou ainda mais relevância em meio à crise sanitária. Foto: Thiago Oliver

Há quase 110 anos o porto da cidade de Southampton, na Inglaterra, preparava-se para desancorar o Titanic, maior e mais luxuoso navio da época. Essa grande obra da engenharia naval ostentava beleza e segurança. Contudo, o famoso barco teve o insucesso de naufragar na viagem inaugural, deixando um saldo trágico de aproximadamente 1,5 mil mortos.

Diferentemente do Titanic, a missão do pequeno barco Luzeiro I começou discreta. Porém, ele também entrou para a história, não por naugrafar, mas por se tornar um barco salva-vidas. E ao longo de nove décadas esse ministério sobre as águas se fortaleceu entre as populações ribeirinhas. Hoje existem três lanchas em atividade, sem contar a que está em manutenção.

Tudo começou em julho de 1931. Seguindo o conselho da escritora norte-americana Ellen White quanto à importância da obra médico-missionária, Leo e Jessie Halliwell, juntamente com os colportores Hans Mayr e André Gedrath, decidiram construir uma lancha própria para auxiliar no avanço da obra evangelística na região Norte do Brasil. A ideia era oferecer assistência à população de regiões remotas. Para tanto, o barco deveria ser uma casa para os missionários e, ao mesmo tempo, uma clínica; com espaço para cozinha, banheiro, quartos, depósito de medicamentos e equipamentos médicos.

A influência desse barco foi grande e positiva. Quando os ribeirinhos avistavam a Luzeiro ainda ao longo do rio, adultos e crianças saíam de suas casas com lenços brancos para acenar e receber os tripulantes. Então, a clínica flutuante era montada. Aos poucos, apareciam canoas de todos os lados para receber atendimento. Ao todo, os missionários realizavam cerca de 6 mil atendimentos médicos por ano, um número significativo para a época.


As pessoas estacionavam as canoas ao redor da Luzeiro para receber os atendimentos. Por vezes, os ribeirinhos navegavam centenas de quilômetros para chegar ao local. Foto: Arquivo CPB

Com o passar dos anos, o objetivo de levar luz e esperança às comunidades mais afastadas não mudou. Ao contrário, evoluiu, mesmo em face da pandemia. O desejo de ser missionário foi cultivado por John Anderson desde criança. Ao ouvir os informativos mundiais das missões, ele sonhava em um dia viver de perto as mesmas experiências. Quando o chamado finalmente aconteceu, era início do desafiador ano de 2020. Além disso, John estava noivo e iria para regiões de difícil acesso à telefonia móvel. Contudo, isso não o impediu de embarcar na missão.

O enfermeiro conta que, por onde a Luzeiro passava, era possível ver os milagres de Deus acontecerem diariamente. Um deles transformou a vida da dona Biá. Depois de ter sido picada três vezes por uma cobra dentro de casa, ela enfrentava dificuldades para se locomover. Além disso, sofria muito com crises de diabetes. “A alimentação dela é a tradicional do Amazonas: muita farinha, peixe frito e coisas não tão saudáveis. Mas ela se interessou pelas nossas orientações de saúde, mudou a alimentação e parou de tomar refrigerante. Quando voltamos uma semana depois, a glicemia estava controlada. Ela não queria que fôssemos embora. Foi muito marcante para mim ver quanto as pessoas se sentem amadas mesmo com uma assistência tão simples”, relata Jhon.

Como a maioria dessas comunidades não tem posto de saúde, elas geralmente recebem visitas médicas uma vez por mês. Contudo, esse serviço ficou limitado durante a ­pandemia. A missionária Aline Andrade conta que foi com a chegada da Luzeiro que essa realidade mudou. Em sete comunidades, apenas a Luzeiro XXX realizou cerca de 800 atendimentos, entre procedimentos médicos, odontológicos e de enfermagem.

DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO

Além dos atendimentos de saúde, o ministério fluvial tem o objetivo de disseminar o evangelho. Em 1983, a Luzeiro XXI chegou à comunidade de Igarapé dos Reis, no Amazonas. Nessa ocasião, Maria Odete morava no povoado e era uma simpatizante da observância do sábado bíblico, mesmo não tendo conhecimento do quarto mandamento. Com a chegada do barco, os missionários ofereceram consultas médicas, remédios e Bíblias. A mulher ficou encantada com as atividades e perguntou se eles também realizavam cultos. Os voluntários então sorriram e devolveram a pergunta: “Você faz cultos?” “Não sei o que é”, ela disse, “mas posso aprender e gostar”.

As reuniões começaram a acontecer na casa de uma conhecida e, em pouco tempo, a dona da casa e Maria Odete foram batizadas. Posteriormente, a família de ambas tomou a mesma decisão. Dessas pequenas reuniões, surgiu a primeira igreja adventista dessa comunidade.

Quase 40 anos depois, Elizabeth Rios, filha da Maria, ainda lembra a influência que o ministério teve na conversão da sua família: “Meus irmãos e meu pai bebiam muito e eu também. Os pensamentos eram outros e eu não tinha vontade de entrar em nenhuma igreja. Quando a Luzeiro chegou, a sensação era de que Jesus estava voltando naqueles dias”, relata emocionada. “Quando a Luz chegou aqui, nós vivíamos em trevas e, se ela não tivesse chegado naquela época, eu não sei o que teria sido dessa comunidade hoje. Houve uma transformação total”, conclui.

Durante a pandemia, a lancha Luzeiro voltou a Igarapé e encontrou Elizabeth em uma fase delicada e depressiva. Toda a família contraiu a Covid-19 e, infelizmente, o pai não resistiu e morreu de complicações causadas pelo coronavírus. Ela relembra que foi tomada por uma tristeza profunda e que não tinha forças para trabalhar nas atividades da igreja. Por providência divina, a Luzeiro atracou ali e fez a diferença na vida daquela família mais uma vez. “Sempre que a gente está precisando, a Luz aparece. Os missionários passaram um mês com a gente, orando e nos motivando. A Luzeiro me trouxe esperança e comecei a ser uma nova pessoa novamente”, afirma.

O MÉTODO DE CRISTO

Essas e outras histórias mostram que as lanchas Luzeiro continuam seguindo o método que Cristo utilizava para influenciar as pessoas. Os missionários conhecem o local, atendem as necessidades nos moradores e ensinam sobre a Bíblia. Como resultado desse trabalho, recentemente 20 pessoas foram batizadas em uma única comunidade e outras dezenas estão interessadas em aprender mais sobre a Bíblia.

As embarcações que levam qualidade de vida e esperança carregam o que ninguém pode afundar: o ardente desejo de fazer o bem e pregar o evangelho nos labirintos do Amazonas.

GISELE CALISTO é jornalista e atua como voluntária na assessoria de comunicação do Instituto de Missões Noroeste, em Manaus (AM)

(Reportagem publicada na edição de junho de 2021 da Revista Adventista)

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