Atenção

Multiplicação do pão

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A história de uma batedeira velha que ajudou a colocar duas garotas na universidade e outras dezenas de órfãos na escola

Dick Duerksen
Propaganda da Padaria do Chefe do Céu, nas ruas de Livingstone, no Sul da Zâmbia. Foto: Dick Duerksen

Com fome de aprender e esperançosas com o futuro, as crianças perguntaram se podiam frequentar uma escola próxima dali, um colégio conhecido pelo alto número de formandos que ingressam na universidade. “Lamentamos. Não temos dinheiro para pagar uma escola particular”, disseram Stain e Gladys Musungalia às suas filhas. “Vamos orar pelo dinheiro”, responderam as garotas. “Deus sempre supriu nossas necessidades e temos certeza de que fará isso outra vez.”

* * *

Assim a aventura começou. Pais e filhas oraram de manhã, à noite e durante o dia inteiro, lembrando a Deus o assunto da escola, suas esperanças e a necessidade de recursos.

Alguns dias depois, em sua caminhada de oração matinal, o pai Stain foi interrompido por um estranho carregando um pacote volumoso. “Senhor Stain”, chamou o estranho. “Tenho um presente para o senhor.” Stain parou, cumprimentou o homem e aceitou o pacote com formato estranho.

“Está quebrado, mas ouvi dizer que o senhor consegue consertar qualquer coisa. Minha esposa e eu achamos que o senhor seria capaz de fazer isso funcionar outra vez e talvez usar para alguma coisa.”

“O que é isso?”, Stain perguntou, levantando o pacote, testando seu peso e volume, imaginando o que poderia estar ali dentro. “É uma batedeira de fazer pão, bem velha”, disse o homem. “A tigela está amassada e o motor parou de funcionar, mas ela é excelente para fazer pão. O senhor pode fazê-la funcionar outra vez. Tenho certeza de que vai conseguir.”

Stain não estava tão certo disso. Ele gostava de pão, mas não tinha ideia de como era feito. Lembrou-se de que ­Gladys era uma cozinheira maravilhosa, mas sempre comprou pão para eles, nunca fez em casa. E o problema do motor? Bem, talvez isso ele pudesse consertar. “Muito obrigado, amigo!”, disse Stain, e dirigiu-se para sua casa, levando o presente para Gladys.

* * *

Gladys riu, e as crianças também. Stain deixou ali o pacote e saiu correndo para o trabalho. No caminho de volta para casa, ele parou em um armazém e comprou vários quilos de farinha de trigo, só por precaução. Aquela noite ele trabalhou várias horas naquele motor pesado, raspando a ferrugem, rebobinando e prendendo os fios, além de dar umas marteladas e orar com fervor. Pela manhã, o motor estava funcionando e sacudindo a antiga tigela. O pão se tornava uma possibilidade!

Gladys riu, e as crianças também. Mas dessa vez o riso estava tingido de esperança. Stain começou a sonhar com uma padaria, prateleiras cheias de pães, pãezinhos, talvez até croissants. “Vamos chamá-la de Padaria do Chefe do Céu”, anunciou Stain. “Ela vai enviar vocês para a universidade.”

Todos trabalharam e os sonhos começaram a se concretizar. Os fregueses passaram a indicar os “pães maravilhosos” da Padaria do Chefe do Céu e as meninas conseguiram frequentar a nova escola.

Stain e Gladys se esforçaram muito para manter a padaria funcionando, pois as duas filhas, Chibale e Kunda, se inscreveram na Universidade Copperbelt, cerca de mil quilômetros de Livingstone, no centro da Zâmbia. Embora a padaria fosse bem-sucedida, a família só tinha o dinheiro suficiente para cobrir as despesas de combustível para levar as filhas para a universidade. Não havia recursos para as taxas.

A dois dias do início das aulas, eles voltaram a orar. Cheios de esperança, a família partiu para Copperbelt, sem dinheiro para as taxas, somente com o boletim que confirmavam as boas notas das filhas. Eles tinham a esperança de que isso seria suficiente para que elas recebessem bolsas de estudo da universidade. A família Musungalia dormiu aquela noite na casa do irmão mais novo de Stain, que mora perto da universidade, e, na manhã seguinte, foram solicitar as bolsas de estudo.

“Não se preocupem”, disseram as meninas. “Até aqui Deus supriu nossas necessidades. Ele não vai desistir de nós agora.” A família inteira orou pelas garotas e Stain e Gladys voltaram para casa, em Livingstone, no sul do país, na fronteira com o Zimbábue. “Deixamos nossas filhas nas mãos do Deus vivo”, lembra-se Stain. “O que Ele decidir será.”

Três dias depois, eles receberam uma mensagem de que as duas filhas haviam sido aceitas na universidade. Elas tinham recebido bolsa de estudos integral na faculdade de ciências. Realmente, havia muito o que comemorar!

* * *

Deus continuou a abençoar os fabricantes de pão, e não demorou muito para que a primeira padaria desse origem a um segundo, terceiro e quarto estabelecimentos. Essa última unidade ficava em Sesheke, a 200 quilômetros de Livingstone. Porém, as bênçãos não pararam por aí.

“Percebi que havia muitas crianças pequenas, que pareciam famintas, reunindo-se perto das padarias”, contou Stain. “Perguntei a elas por que estavam ali, e todas me disseram a mesma história. Elas eram órfãs e estavam com fome.”

A batedeira velha e enferrujada que iniciou tudo. Foto: Dick Duerksen

Stain foi até a Padaria do Chefe do Céu mais próxima e saiu com vários sacos grandes e cheios de pães frescos. “Um para cada um”, disse ele. Embora tivesse deixado algumas crianças felizes por um momento, Stain concluiu que precisava fazer algo mais.

Assim, Gladys e ele começaram a falar com seus amigos, ­reuniram-se com grupos de suporte social e começaram a transformar sonhos em realidade. Novas escolas foram abertas para os órfãos, ao lado das padarias.

“Nós oramos bastante”, disse Gladys. “Sabíamos que, por nós mesmos, não podíamos fazer muito pelas crianças, mas também tínhamos certeza de que, assim como Deus nos havia dado as padarias, talvez Ele estivesse pronto para nos ajudar a fazer algo especial por aquelas crianças.” O casal havia chegado à conclusão de que aquela velha e enferrujada batedeira tinha sido um presente de Deus para a família deles. Porém, era hora de eles presentearem outras pessoas.

Depois que as filhas se graduaram na universidade, Stain e Gladys doaram três das quatro padarias aos gerentes das unidades. “Essas padarias foram presentes de Deus para nós”, disse Stain aos gerentes admirados. “Agora são nosso presente para vocês. Mas o presente vem com uma pequena exigência. Precisam prometer que os órfãos da escola do lado de cada padaria sempre terão pães suficientes e algo especial todas as sextas-feiras.” Houve festa, apertos de mãos e promessas por toda parte.

As Padarias do Chefe do Céu ainda funcionam em Livingstone e Sesheke, além de várias hortas que produzem alimentos para crianças carentes e órfãs. Embaixo do balcão da primeira padaria, num lugar de destaque, há uma velha batedeira, bem amassada, mas ainda brilhante. Um presente que continua presenteando.

DICK DUERKSEN é pastor e mora em Portland, Oregon (EUA)

(Matéria publicada na edição de dezembro de 2020 da Revista Adventista / Adventist World)

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