Pioneirismo feminino

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A história de cinco mulheres brasileiras que decidiram entregar seus talentos a serviço de Deus

Maria Júlia Galvani

Foto: Adobe Stock; cortesia Centro White – Unasp

A história do cristianismo é repleta de mulheres que foram usadas por Deus. Nos livros de Atos e Romanos, por exemplo, encontramos o registro de algumas que “trabalharam arduamente no Senhor” (Rm 16:12). Poderíamos citar Febe, líder na igreja de Cencreia; Priscila, cooperadora do apóstolo Paulo no evangelismo entre os gentios; Júnias, notável entre os apóstolos; e Lídia, em cuja casa foi fundada a primeira igreja da Europa, em Filipos (Grécia).

Nos primórdios da Igreja Adventista não foi diferente. Deus escolheu uma adolescente sincera e consagrada para ser sua porta voz. Ellen Harmon, que mais tarde se tornou Ellen White, iniciou seu ministério profético com apenas 17 anos de idade. Sua saúde frágil, pouca idade e o fato de ser mulher em uma sociedade com fortes características patriarcais não a impediram de exercer um sólido ministério de 70 anos. Afinal, Deus “escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” (1Co 1:27, 28). Suas orientações ajudaram os crentes desapontados a encontrar luz na Bíblia para prosseguir e, futuramente, estabelecer a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

As mulheres também tiveram papel importante como missionárias no estabelecimento do adventismo em outros países. Podemos citar como exemplos Maud Sisley Boyd, que foi a primeira mulher solteira enviada pela Associação Geral como missionária para a Europa (1877), e Georgia Anna Burrus, a primeira missionária adventista na Índia (1895).

E quanto ao adventismo no Brasil, será que as mulheres também tiveram sua contribuição? É certo que sim. Ao olharmos o mural dos pioneiros e vermos nomes como Augustus Stauffer, Frederick Spies, Huldreich Graf e John Lipke, é possível que alguém se questione ao ver a atuação preponderante de figuras masculinas. Em uma época na qual longas viagens à mula eram necessárias para atender a um vasto território, era natural que as esposas dos missionários, muitas vezes afetadas pelo clima tropical e pelas próprias dificuldades que o fim do século 19 apresentava às donas de casa, não apareçam tanto nos registros históricos como seus maridos.

Contudo, à medida que se buscava formar pessoas para auxiliar no progresso da obra adventista no Brasil, os talentos das mulheres não foram ignorados. Afinal, “quando é preciso fazer uma obra grande e decisiva, Deus escolhe homens e mulheres para realizá-la, e ela sofrerá dano caso os talentos de ambas as partes não se aliarem” (Ellen G. White, Evangelismo [CPB, 2023], p. 469).Na primeira formatura do Colégio Adventista Brasileiro (CAB, atual Unasp), em 1922, graduaram-se nove missionários – cinco pastores e quatro professoras. Uma delas era Isolina Waldvogel. Filha de um jornalista e político influente no Rio Grande do Norte, Isolina demonstrou talento para as letras desde pequena. Ainda na adolescência, tornou-se fluente em inglês e francês. Sua vida mudou quando conheceu o adventismo em uma série evangelística no Rio de Janeiro, ministrada pelos pastores Emanuel Ehlers e Frederick Kümpel. Ela entregou a vida a Jesus por meio do batismo em 1915 e, a partir de então, decidiu ser missionária.

Para isso, ela foi estudar no CAB, onde também conheceu o futuro esposo, Luiz Waldvogel. E essa união foi perfeita, pois Luiz também era apaixonado pelas letras e logo foi convidado a trabalhar na Casa Publicadora Brasileira. Juntos, exerceram um ministério abençoado na área de publicações. Ali, Luiz serviu como editor-chefe por 31 anos. Já Isolina teve a oportunidade de traduzir 19 livros para o português, entre eles O Desejado de Todas as Nações, de Ellen White. Ela também participou da tradução de hinos para o Hinário AdventistaMelodias de VitóriaLouvores Infantis e o quarteto de A Voz da Profecia. Escreveu ainda seu próprio livro de poesias, intitulado Oferenda (verbete “Waldvogel, Isolina Alves Avelino (1892-1980)” da Enciclopédia Adventista do Sétimo Dia).

Também no CAB, não podemos deixar de mencionar outra mulher que decidiu entregar seus talentos para serem usados na missão de Deus. Albertina Simon gostava de ler desde criança e, por isso, decidiu se tornar professora, tendo completado o Magistério em 1916. Ela conheceu o adventismo por meio de uma conferência evangelística em tenda, conduzida pelo pastor John Lipke ao lado de sua casa. Ao aprender que o sábado é o verdadeiro dia de observância, deixou o trabalho como professora na rede pública que, naquela época, ainda oferecia aulas nesse dia.

QUANDO É PRECISO FAZER UMA OBRA GRANDE E DECISIVA, DEUS ESCOLHE HOMENS E MULHERES PARA REALIZÁ-LA

Mas Deus já tinha um plano para sua vida. Em 1918, devido à Primeira Guerra Mundial, o governo brasileiro promulgou uma lei pela qual toda escola no país deveria ter um professor nativo para lecionar História, Geografia e Português. Na época, o quadro docente do CAB era majoritariamente composto por missionários vindos dos Estados Unidos, em razão da falta de obreiros nativos para assumir a função. Foi assim que Albertina se tornou a primeira professora adventista brasileira. Ela lecionou no CAB por 35 anos e contribuiu para a formação da primeira geração de pastores que ali se graduaram (verbete “Simon, Albertina Rodrigues da Silva (1896-1984)” da Enciclopédia Adventista do Sétimo Dia).

Nesta breve recapitulação sobre o pioneirismo feminino no Brasil, a área da saúde não poderia ficar esquecida. E quem logo nos vem à mente é a enfermeira missionária Jessie Halliwell. Ela conheceu o adventismo em uma série evangelística realizada numa tenda em Kearney, no Nebraska (EUA). Após seu batismo, decidiu estudar Enfermagem no Union College, uma faculdade adventista em Lincoln, onde se graduou em 1916. Jessie e o esposo, Leo, que era engenheiro, estavam envolvidos com o trabalho evangelístico no estado de Iowa quando receberam o surpreendente convite para serem missionários no Brasil.

Eles chegaram ao país em 1921, onde se destacaram como idealizadores da primeira lancha Luzeiro, projeto missionário que até hoje leva assistência médica à população ribeirinha do rio Amazonas. Jessie tinha uma personalidade dinâmica. Além de atender os enfermos nas suas mais diversas necessidades, ela promovia evangelismo infantil, ministrava estudos bíblicos, oferecia cursos de culinária saudável, colportava e ajudava financeiramente jovens a obter uma formação. Estima-se que o casal tenha tratado cerca de 250 mil pacientes. Eles também contribuíram para o estabelecimento do Hospital Adventista de Belém, em 1953 (verbete “Halliwell, Leo Blair (1891-1967) e Jessie (Rowley) (1894-1962)” da Enciclopédia Adventista do Sétimo Dia).

Nesse meio tempo, a obra médico-missionária no Brasil se expandiu com a fundação da Clínica de Repouso White (1942), no Rio de Janeiro, futuro Hospital Adventista Silvestre; da clínica O Bom Samaritano (1944), em Porto Alegre; da Casa de Saúde Liberdade (1945), em São Paulo, precursora do Hospital Adventista de São Paulo; e do Hospital Adventista do Pênfigo (1950), em Campo Grande (MS).

Pensando na formação de profissionais da saúde adventistas, em 1965 o Instituto Adventista de Ensino (antigo CAB) traçou planos de estabelecer o curso de graduação em Enfermagem. Para isso, Maria Kudzielicz, que na época era enfermeira-chefe da Casa de Saúde Liberdade, foi chamada para coordenar essa missão especial. A Faculdade Adventista de Enfermagem teve início em 1969, da qual Maria foi diretora por oito anos (1970-1977). Hoje, a FAE (como era chamada) continua formando centenas de profissionais todos os anos, que compartilham o amor de Jesus servindo à sociedade (verbete “Kudzielicz, Maria (1924-2002)” da Enciclopédia Adventista do Sétimo Dia).

Outra área em crescimento na década de 1960 era a de comunicação. A Igreja Adventista foi pioneira com a veiculação do primeiro programa evangélico na televisão brasileira. Em 25 de novembro de 1962, na TV Tupi, foi ao ar o programa Fé Para Hoje, apresentado pelo pastor Alcides Campolongo. Ao seu lado, estava a coapresentadora Neide Campolongo, que, apesar da inexperiência na área, superou com maestria o desafio de participar das transmissões ao vivo em rede nacional.

Ela também foi pioneira na área de evangelismo infantil, contribuindo, ao lado do esposo, nas campanhas evangelísticas. Serviu ainda como a primeira diretora do Departamento Infantil da Escola Sabatina no Brasil e esteve envolvida na primeira Escola Cristã de Férias da Divisão Sul-Americana. Ela é exemplo de alguém que se dedicou com amor para a salvação de outros (verbete “Campolongo, Alcides (1925-2019)” da Enciclopédia Adventista do Sétimo Dia).

Ao refletirmos sobre a história dessas cinco mulheres que decidiram entregar seus talentos a Deus e não mediram esforços para o progresso do evangelho, lembramo-nos do conselho inspirado de Ellen White: “Por que a mulher não pode cultivar o intelecto? Por que ela não pode corresponder ao desígnio de Deus em sua existência? Por que ela não pode compreender as próprias habilidades e, reconhecendo que essas habilidades lhes são dadas por Deus, esforçar-se por empregá­-las ao mais alto grau em fazer bem aos outros, em promover o progresso da obra de reforma, de verdade e bondade real no mundo?” (Evangelismo [CPB, 2023], p. 467).

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, reflita: quais potenciais Deus me deu e espera que eu desenvolva para a Sua glória? Que as suas fragilidades não sejam usadas como desculpa, mas que as suas singularidades venham a somar como força no seu ministério.

MARIA JÚLIA GALVANI, graduada em Pedagogia e Letras e pós-graduada em Tradução, atuou como secretária do Centro de Pesquisas Ellen G. White no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP)

(Artigo publicado na Revista Adventista de março/2024)

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Última atualização em 8 de março de 2024 por Márcio Tonetti.