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Selo real

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selo-ezequiasNo começo de dezembro, a Universidade Hebraica de Jerusalém anunciou a descoberta de um selo atribuído à Ezequias, monarca que governou o reino de Judá de 715 até 686 a.C. É a primeira vez que a bula de um rei de Judá foi descoberta em Jerusalém. O ponto é que, nos últimos anos, oito selos contendo o nome de Ezequias apareceram no mercado de antiguidades, o que naturalmente levantou suspeitas quanto à autenticidade deles. Dois desses são idênticos ao que foi divulgado no início do mês. O grande diferencial desse achado, porém, é que se trata do primeiro selo de um rei do relato bíblico encontrado numa escavação arqueológica oficial.

Segundo a responsável pela descoberta, a arqueóloga israelense Eilat Mazar, o pequeno objeto mede 9,7 x 8,6 mm, aproximadamente o tamanho de uma unha humana, e contém as palavras: “Pertencente a Ezequias [filho de] Acaz, rei de Judá”. Os feitos de Ezequias estão registrados nos livros de 2 Reis, 2 Crônicas e Isaías. Para o autor do livro de 2 Reis, Ezequias foi um monarca incomparável na história de Judá, principalmente por liderar reformas religiosas (2Rs 18:5).

Diferentemente dos impérios da Mesopotâmia, que usavam tabletes de argila para o registro de inscrições, ao que tudo indica os israelitas utilizavam papiro. Por isso, depois de pronto, o documento era enrolado e, com uma corda fina e um pedaço de argila fresca, ele era colocado sobre essa mesma corda para então receber a assinatura de um selo como o que foi encontrado em Jerusalém. Deve ter sido esse tipo de selo que João observou numa visão e registrou nos capítulos 5 e 6 de Apocalipse.

Iconografia

Para o Dr. Michael Hasel, arqueólogo da Southern Adventist University (EUA), um aspecto importante desse objeto tem que ver com o que os especialistas chamam de iconografia, ou seja, suas representações gráficas. De posse de uma lente de aumento e com um olhar atento para esse achado, nota-se a imagem de um sol com asas emitindo raios de luz e com um ankh, o símbolo egípcio para vida eterna, à direita dele. Em relação ao primeiro ícone, ele pode ser tanto uma clara referência ao deus sol egípcio Rá ou ao Deus nacional de Judá, Yahweh, que é comparado a um sol em algumas passagens do Antigo Testamento (Sl 84:11 e Ml 4:2).

A primeira explicação para esse símbolo é improvável, porque Ezequias é conhecido na história sagrada como um reformador da religião de Judá. Como então entender um ícone egípcio associado com Ezequias? A hipótese mais forte é de que seja um indicativo de uma aliança política entre Ezequias e o faraó egípcio Tiraca, no fim do 8º século a.C. Essa aliança deve ter provocado a campanha militar arrasadora do rei assírio Senaqueribe contra Judá, no ano 701 a.C. Em seus documentos reais, Senaqueribe se referiu ao Egito como qana hasasu, “cana esmagada”, a mesma expressão usada por um oficial assírio ao ridicularizar a confiança do rei Ezequias no poder militar do Egito (Is 36:6). Até o momento, a aliança política entre Ezequias e Tiraca é a melhor explicação para essas imagens que aparecem no objeto.

Apesar de uma descoberta como essa trazer um colorido mais autêntico para um personagem bíblico, eventos relacionados com Ezequias e seu reinado em Jerusalém estão bem documentados em registros extrabíblicos. O principal motivo para isso é que existem vários achados que comprovam a campanha militar de Senaqueribe contra Judá. Além das três narrativas bíblicas sobre essa intervenção (Is 36-37; 2Rs 18 e 2Cr 32), documentos egípcios, oito inscrições reais assírias, e objetos arqueológicos e relevos que adornavam o palácio de Senaqueribe estão entre as inúmeras evidências, diretas e indiretas, dessa investida estrangeira contra o reino de Ezequias.

Em um dos seus registros, Senaqueribe afirma ter conquistado 46 cidades importantes e capturado mais de 200 mil habitantes do reino de Judá. Ele se referiu à Ezequias (em acadiano, Hazaqiau) como um pássaro em sua gaiola, isto é, em Jerusalém, que estava amedrontado diante da sua grandeza. Curiosamente, Senaqueribe não se vangloriou da conquista de Jerusalém, a cidade mais importante da região. Os três relatos da Bíblia apresentam o mesmo quadro. Portanto, não é exagero dizer que esse evento durante o reinado de Ezequias é a história bíblica mais bem documentada arqueologicamente até o momento.

Conforme escreveu Michael Hasel, num artigo no site da revista Adventist Review, “por meio da arqueologia nós podemos voltar no tempo e virtualmente apertar a mão do rei Ezequias, isso porque é muito provável que tenha sido a própria mão dele que produziu esse selo.”

Texto: Luiz Gustavo Assis

Última atualização em 16 de outubro de 2017 por Márcio Tonetti.

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