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Com quantos decibéis se faz um louvor?

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Entenda o que a Bíblia diz sobre louvar a Deus em alto e bom som

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Era uma sexta-feira à noite e eu terminava uma palestra sobre música sacra quando alguém tentou provar que a música em volume muito alto era proibida por Deus. Seu argumento baseava-se no seguinte texto de Ellen White: “Pensam alguns que, quanto mais alto cantarem, tanto mais música fazem; barulho, porém, não é música. O bom canto é como a música dos pássaros – suave e melodioso” (Manuscrito 91, 1903).

Eu informei que, na verdade, o volume sonoro muito alto, que ultrapasse o nível de decibéis fixado em lei, é proibido por códigos municipais e federais, embora motoristas, vizinhos e até igrejas nem sempre respeitem essa lei (consulte a Lei do Silêncio ou Sossego Público).

Mas ressaltei que a Bíblia defende, sim, um alto e bom som para louvar a Deus:

– Instrumentos tocando em fortíssimo (I Crônicas 15:16 e 28; Salmo 98:6);

– Brados de alegria (Salmo 66:1);

– Canto entusiástico (Salmo 95:1-2; Salmo 47:1; Sofonias 3:14);

– Alto som de vozes acompanhadas de instrumentos (Salmo 98:4-6);

– Barulho de toda a terra (Salmo 100).

Usei o termo “barulho” porque nas Bíblias traduzidas para o inglês seu correspondente é a expressão joyful noise, que seria um som ou barulho alegre, feito com júbilo. O termo hebraico é ruwa’, utilizado 45 vezes no Velho Testamento, geralmente com o sentido de gritos de alegria, aclamação, brados de vitória ou soar um alarme (Brown-Driver-Briggs Hebrew Lexicon).

Nessa perspectiva, brados e música em alto e bom som são o oposto da suavidade de passarinhos. Haveria, aqui, uma contradição? Na verdade, só há contradição se não considerarmos o contexto vocal dos cultos evangélicos nos Estados Unidos do século 19.

Naquela época, quase não havia hinários, maestros ou instrumentistas nas igrejas, e era comum que os fiéis cantassem cada um no seu próprio tom e no seu próprio ritmo, fazendo que o louvor se tornasse caótico. Joseph Clarke, um pioneiro adventista, testemunhou que “quando cantamos, os finais de cada verso ecoam sem parar, cada um cantando do seu jeito” (The Adventist Review and Sabbath Herald, 10/11/1859).

Ellen White também presenciou “vozes não afinadas”, que buscavam “os tons mais elevados, literalmente guinchando” os versos dos hinos. Ela considerava que aquelas “vozes agudas, estridentes” eram impróprias “para o solene e jubiloso culto de Deus”, e desejava “tapar os ouvidos ou fugir do lugar” (Signs of the Times, 22/06/1882).

Cantar desafinado ou com estridência nem sempre tem a ver com irreverência, mas com pouca instrução musical e com a tradição de se cantar. Muitos de nós já observamos algumas congregações que cantam forte tanto quanto arrastam o ritmo de um hino. Alguns podem ter desejado tapar os ouvidos também.

Mas se você é músico, o melhor a fazer é educar musicalmente a congregação, pois “quanto mais perto puder chegar o povo de Deus do canto correto, harmonioso, tanto mais Ele será glorificado, a igreja beneficiada e os descrentes impressionados favoravelmente” (Testemunhos Seletos vol. 1, p. 46).

Em segundo lugar, alguns líderes religiosos notavam que alguns dos irmãos cantavam mais alto que os outros, fosse por exibicionismo, por entusiasmo ou por ignorância. Preocupado com os excessos, o evangelista John Wesley chegou a escrever um apêndice com orientações para o canto no hinário metodista Select Hymns, de 1761, recomendando que os fiéis mais instruídos não inibissem a voz de cantores menos qualificados.

Este conselho para o canto sem exageros não está em contradição com as passagens bíblicas sobre cantar com entusiasmo. Se toda a congregação canta, o som será mais forte. É preciso estar num estado extremo de letargia espiritual para não fazer soar alto versos como “canta minha’alma, canta ao Senhor”, “porque Ele vive posso crer no amanhã”, “grande é nosso Deus e as obras que Ele faz” ou “eu não me esqueci de ti, virei outra vez”.

Ao escrever que “qualquer coisa estranha e excêntrica no canto diminui a seriedade e o caráter sagrado do culto”, Ellen White demonstrava estar atenta às manifestações exageradas no louvor (Mensagens escolhidas vol. 3, p. 332). Sua orientação projetava um ponto de equilíbrio entre o culto solene e o culto festivo, por isso ela não concordava com formalismo e cultos enfadonhos: “Seu culto deve ser interessante e atraente, não se permitindo que degenere em formalidade insípida” (Testemunhos Seletos v. 2, 2008, p. 252).

Isso nos mostra que às vezes os decibéis de um canto congregacional podem ser um “som forte e alegre”, desde que feito sem desordem (I Cor. 14:40) e dentro dos níveis sonoros permitidos por lei. Outras vezes, a congregação canta suave. Porém, nunca deveríamos cantar na igreja por mera formalidade. Então, como evitar tanto a frieza insípida quanto o emocionalismo irreverente ao cantar? John Wesley ofereceu uma boa resposta: “Cantem vigorosamente; cantem moderadamente”. [Créditos da imagem: Fotolia]

Joêzer Mendonça, doutor em Música (UNESP), é professor da PUC-PR e autor do livro Música e Religião na Era do Pop

Última atualização em 16 de outubro de 2017 por Márcio Tonetti.

Sobre Joêzer Mendonça

Joêzer Mendonça
Doutor em música, professor na PUC-PR e autor do livro Música e Religião na Era do Pop

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