Conectando universos

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Encontro sul-americano discute tendências da comunicação e reafirma o papel estratégico da mídia na missão

Márcio Tonetti

Pastor Jorge Rampogna, líder sul-americano do departamento de Comunicação e organizador do evento realizado na Igreja Central de Brasília. Foto: Gustavo Leighton

O termo “multiverso” se popularizou com a teoria dos Universos paralelos que inspirou livros, filmes e séries de ficção científica. Porém, a palavra também foi incorporada ao vocabulário da comunicação para se referir aos universos com “u” minúsculo que coexistem na sociedade atual.

Falar para uma audiência tão diversificada é um grande desafio. Não foi por acaso que o tema escolhido para o Encontro Sul-Americano de Comunicação, que reuniu cerca de 450 pessoas em Brasília (DF) nos dias 17 a 19 de maio, foi “Conectando Universos”.

Por ter sido o primeiro encontro presencial na área realizado pela igreja no pós-pandemia, os relatórios apresentados pelas equipes das sedes administrativas e instituições representadas destacou especialmente a adaptação da igreja para manter os membros conectados por meio de cultos on-line nos períodos de quarentema. Ao mesmo tempo, foram transmitidas inúmeras lives evangelísticas. Como resultado, milhares de pessoas manifestaram interesse em estudar a Bíblia. Um mês depois da chegada da pandemia ao Brasil, a sede adventista para a região Nordeste do país, por exemplo, já havia contabilizado 5,8 mil novos estudos bíblicos. Para ajudar a atender à demanda, foi criada uma assistente virtual.

Inteligência artificial

O pastor William Timm mostrou como a inteligência artificial tem sido uma aliada no evangelismo. Foto: Gustavo Leighton

Por falar em influenciadores virtuais, uma das novidades apresentadas durante a programação foi o upgrade do robô Esperança, utilizado pela Escola Bíblica Digital. Conforme mencionou o pastor William Timm, que coordena o departamento responsável pela Esperança na Rede Novo Tempo, curiosamente, pesquisas mostram que influenciadores digitais geram, em média, até três vezes mais engajamento de fãs do que seus pares humanos.

O robô, que envia, em média, mais de 140 mil mensagens por dia, respondeu a 38 mil perguntas bíblicas nos últimos três anos, sendo um importante aliado na evangelização. Para se ter uma ideia, somente no período de dezembro de 2019 a março de 2022, o trabalho da equipe da Escola Bíblica e da assistente virtual contribuiu para que mais de 11,7 mil pessoas tomassem a decisão pelo batismo.

Por isso, a intenção é “humanizar” cada vez mais a influenciadora virtual, melhorando a imagem do robô e aprimorando sua capacidade de atender ao público. No momento, a equipe tem trabalhado para que ela seja capaz de responder perguntas teológicas mais complexas. Além disso, a intenção é que a Esperança incentive os alunos a concluir os estudos bíblicos e ofereça até mesmo suporte emocional quando necessário.

Tendências

Pesquisadores e consultores de diversas áreas apresentaram algumas tendências. Por exemplo, o palestrante Eduardo Lopes Santos, que atua há mais de 20 anos na área de recursos humanos, marketing e planejamento estratégico em multinacionais, argumentou que a comunicação precisará levar em conta os seguintes cenários: a vida não é mais a mesma depois da pandemia; a população global já é majoritariamente urbana; as interações de trabalho mudaram (com um número crescente de pessoas exercendo suas atividades remotamente); há cada vez mais mulheres assumindo postos de liderança; e a expectativa de vida está aumentando (o que reforça a importância de se comunicar com essa faixa etária também).

Carlos Magalhães, responsável pelo setor de estratégias digitais da sede sul-americana da igreja, foi um dos que abordaram o tema. Foto: Gustavo Leighton

Outro ponto discutido ao longo do evento foi o chamado metaverso, um dos temas em alta. Alguns acreditam que esses ambientes virtuais serão o futuro da internet. De olho nessa tendência, algumas igrejas já inauguraram “templos” e estão realizando cultos de forma totalmente virtual. É o caso de igrejas evangélicas norte-americanas como a Cornerstone Church. Há alguns anos, também foi criada a comunidade interdenominacional intitulada The Robloxian Christians, que se propõe a evangelizar os usuários do Roblox, plataforma de games 3D. 

No contexto brasileiro, recentemente a Igreja Batista da Lagoinha foi a primeira do Brasil a entrar no metaverso, permitindo que as pessoas representadas por um avatar “se conectem para interações sociais por meio de games, eventos, palestras, shows e outros tipos de atividades”.

Porém, até que ponto a Igreja Adventista deve aderir a tendências desse tipo? Essa foi uma das reflexões feitas por Carlos Magalhães, coordenador da área de estratégias digitais na Divisão Sul-Americana, ao enfatizar que é importante fazer uso das diversas ferramentas tecnológicas, mas com prudência. Sem contar que o que parece ser muito empolgante e promissor hoje pode não ser no futuro. Lembra da onda do Second Life?

A doutora Rosana Alves, que falou por videoconferência, também ponderou que o metaverso tem sido uma preocupação entre os neurocientistas. De acordo com a especialista, o cérebro não consegue diferenciar quando está no mundo real e quando está no mundo virtual e isso traz reflexos negativos para a saúde emocional. “Poderemos ver um aumento significativo de casos de ansiedade naqueles que têm uma vida essencialmente digital”, observou.

Cada vez mais, a Igreja Adventista tem fortalecido sua presença nas plataformas digitais. Ao mesmo tempo, ela entende que seu objetivo é conectar esse público com as comunidades presenciais. A história de Diego Soares exemplifica isso. Uma notícia publicada no Portal Adventista o direcionou para a Escola Bíblica. Além da assistência virtual, ele foi acompanhado por um membro da igreja, Ieda Marilda dos Reis Mota, que atua como diretora da Escola Adventista de Santo Antônio da Patrulha (RS). O jovem de 35 anos foi batizado na abertura do Encontro Sul-Americano de Comunicação.  

O professor de inglês Diego Soares teve contato com a igreja pela internet e se matriculou na Escola Bíblica Digital. Como resultado, ele foi batizado no dia 17 de maio pelo pastor Bruno Raso, vice-presidente da igreja na América do Sul. Foto: Gustavo Leighton

Comunicadores missionários

Para onde caminha a comunicação adventista? Para o pastor Jorge Rampogna, líder sul-americano desse departamento, “ela está indo aonde a igreja está indo”. Ele enfatizou que acredita em uma comunicação estratégica, colaborativa, integradora e missionária. Por isso, o organizador do evento buscou reafirmar a importância de os comunicadores adventistas terem o foco na missão e estarem comprometidos com os princípios bíblicos. O pastor Williams Costa Jr., que lidera a área de Comunicação da igreja em nível global e esteve presente no encontro sul-americano, enfatizou a necessidade de os profissionais viverem a mensagem que comunicam. Na mesma linha, o pastor Stanley Arco frisou: “Façam comunicação com a Bíblia ao lado”.

Quem também marcou presença no encontro deste ano foram os presidentes das 16 sedes administrativas estaduais/nacionais (chamadas de Uniões). Isso demostra que, cada vez mais, a liderança da igreja tem reconhecido e valorizado o papel estratégico da comunicação. “Meu coração vibra ao ver centenas de profissionais que decidiram dedicar suas vidas para anunciar, nos mais diversos meios, a maior mensagem de todos os tempos: Jesus em breve voltará”, o pastor Stanley escreveu em seu perfil no Twitter.

MÁRCIO TONETTI, pastor e jornalista, é editor associado da Revista Adventista

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Última atualização em 26 de maio de 2022 por Márcio Tonetti.

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