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Profecias da cibercultura

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O contraponto dos benefícios da tecnologia, diz o professor Tales Tomaz, é que ela nos promete algo que não pode entregar: a imortalidade
Foto: Gustavo de Andrade
Foto: Gustavo de Andrade

Os roteiristas de cinema adoram brincar com a imaginação nos filmes de ficção científica que tratam do futuro. O clássico Robocop, por exemplo, lançado originalmente em 1987 e reestilizado pelo diretor brasileiro José Padilha em 2014, viaja no tempo até 2028, projetando uma sociedade dominada por drones não tripulados e na qual se tornou possível até mesmo a criação de máquinas com sentimentos humanos, os humanoides. Algumas dessas ficções científicas vêm tocando também num ponto controverso: o dos possíveis efeitos colaterais da tecnologia. É o caso do longa-metragem Elysium (2013), que vai ainda mais longe, fazendo projeções para o ano 2159. Na trama, a humanidade se divide em dois grupos: um mais abastado, que mora numa estação espacial, uma espécie de “Céu” (chamado de Elysium) construído a partir da tecnologia, possibilitando, entre outras coisas, a regeneração celular e, consequentemente, a longevidade; e a grande massa populacional, que vive excluída desses benefícios, buscando sobreviver num mundo superpopuloso, doente e em total decadência.

Imaginação fértil à parte, o que a indústria do entretenimento vem mostrando não é algo assim tão distante do cenário que a chamada cibercultura, um movimento sociocultural que exerce cada vez mais influência sobre o cotidiano das pessoas por meio da informatização, tende a consolidar. O assunto vem sendo estudado por Tales Tomaz, 27 anos, professor de cibercultura do Unasp. Fazendo uma leitura crítica da época em que vivemos (veja o quadro “Mudança de perspectiva”), ele mostra como os ideais desse novo fenômeno trazem sérias implicações para a visão cristã em questões como a imortalidade e a eternidade.

Como definir a cibercultura?

Acredito na definição que vê a cibercultura como um movimento sociocultural que defende que tudo pode ser informatizado e digitalizado. De acordo com esse pensamento, é bom informatizar e digitalizar tantas coisas quantas forem possíveis.

De que maneira você analisa essa ideia?

É um engano, porque melhora a vida em alguns aspectos, mas piora em outros. Além disso, pode até torná-la melhor para alguns, mas tem piorado para outros. Os líderes desse movimento normalmente se apoiam em dois argumentos para rebater essa crítica. Uma vertente diz que os ganhos são maiores do que as perdas e que as pessoas beneficiadas são em maior número do que as prejudicadas. Já a outra vertente, mais realista, concorda que há perdas, podem ser até maiores do que os ganhos, mas, mesmo assim, acredita que esse é o passo necessário da evolução humana. Essa é uma perspectiva darwinista.

A tecnologia cumpriria hoje o papel que a ciência assumiu no século 19 de salvadora da humanidade?

Há, sim, uma continuidade dos ideais de progresso e das concepções evolucionistas, como no século 19. Entretanto, não mais é atribuído ao homem o mesmo papel. Na cibercultura, acredita-se que, se for necessário, o homem pode ser superado em favor de outras evoluções tecnológicas. Obviamente, se isso acontecer, nós já não seremos humanos como o ideal pregado pela Modernidade e a ciência positivista.

A informatização tem caminhado para uma tentativa de tornar a humanidade imortal?

Os defensores desse movimento acreditam e apostam na possibilidade de imortalidade por meio do desenvolvimento tecnológico, embora a maioria dos adeptos da cibercultura não tenha percepção disso. O escritor norte-americano Ray Kurzweil chega a dizer que em três décadas nós teremos chegado à imortalidade. Segundo ele, essa conquista se dará, por um lado, através do upload da nossa consciência para um hardware [tema do filme Transcendence – A Revolução], de forma que bastaria trocar as peças para se continuar vivendo; ou, de outro, pelo desenvolvimento de nanotecnologias que passariam a circular em nossa corrente sanguínea e entrariam nas células do nosso corpo, revertendo o envelhecimento dessas células.

Há alguma implicação contrária à Bíblia nesses objetivos?

Todos esses benefícios têm seu reverso. No caso da cura de doenças, existe o pressuposto de que isso gere efeitos colaterais que nós não conhecemos. Intervenções nas nossas células podem limitar uma doença hoje, porém não sabemos o que pode acontecer daqui a 40 anos. Além disso, ao longo dos últimos dois ou três séculos, o desenvolvimento tecnológico e científico tem alcançado primeiramente grupos seletos da população. No momento em que tivermos a possibilidade de alterações em nível celular e embrionário, que vão melhorar as pessoas geneticamente, conforme expressam algumas profecias da cibercultura, haverá pessoas que não somente vão ter mais condições de desenvolver seu potencial ao longo da vida, mas indivíduos geneticamente superiores. Isso é contrário aos princípios cristãos. O cristianismo acredita que o ser humano foi criado por Deus e que não existe raça superior nem inferior. O que existe é a degeneração causada pelo pecado e ela atinge a todos. Com essas possíveis alterações genéticas, pode-se ter pessoas que não necessariamente vão se sentir como parte da mesma família de Adão.

Em meio a esse cenário, como entender situações cotidianas como a preferência das pessoas por usar a Bíblia na versão para tablets e smartphones em lugar das Escrituras no formato tradicional?

O teórico da comunicação Marshall McLuhan defendeu que “o meio é a mensagem” e que esses meios são “extensões do homem”. Mas ele foi muito otimista ao construir essa perspectiva. Também há implicações em migrarmos nossa experiência religiosa para coisas digitais. No momento em que levo um equipamento tecnológico para a igreja, em lugar da Bíblia em papel, tenho lá não apenas a Bíblia, mas uma série de outros atrativos, como mensagens chegando do WhatsApp e do Facebook. Esses recursos, que são muito mais rápidos e visualmente mais bonitos, concorrem de forma poderosa pela nossa atenção. Então, o meio não é uma extensão nossa. Na realidade, nós é que estamos nos tornando uma extensão dos meios de comunicação. Não quero dizer, contudo, que a pessoa não possa levar aparelhos como esses para a igreja ou que isso seja pecado, mas que existem implicações nessas atitudes.

O problema, então, seria a falta de concentração em algo que exige atenção exclusiva como a adoração a Deus?

A reflexão é lenta. E o que os meios de comunicação digitais oferecem é uma vida muito mais acelerada e a possibilidade de ficar o tempo todo lendo, vendo, assistindo. Tudo isso faz com que nos tornemos impacientes com o que demora. Impacientes, inclusive, com o pregador que leva 40 ou 50 minutos para terminar de expor o raciocínio dele.

Embora a tecnologia cumpra um importante papel na pregação do evangelho, devemos estar cientes de nossas limitações e da dependência que temos do Espírito Santo na missão ao mundo?

Corremos o risco de achar que agora as tecnologias vão resolver tudo ou mesmo que nós iremos solucionar tudo por meio das tecnologias. Não vamos! Aliás, nas últimas décadas a história tem mostrado que, quanto mais avançamos no desenvolvimento tecnológico e em nos comunicar por meio da tecnologia, mais resistências estão sendo criadas. A tecnologia pode cumprir, sim, seu papel na pregação do evangelho; e, evidentemente, estar presente no mundo virtual é necessário. Mas precisamos ter consciência dos limites existentes. Caso contrário, tornamos a missão de pregar o evangelho uma experiência centrada no ser humano.

Mudança de perspectiva

Em 2007, o jornalista Tales Tomaz começou a estudar a cibercultura com o intuito de entender melhor as implicações do mundo digital – contexto vivenciado por ele de forma mais significativa a partir dos seis anos de idade, quando sua família passou a ter computador em casa. A visão inicial mais otimista sobre o fenômeno foi desconstruída nos seus estudos de mestrado na PUC-SP. Hoje aluno do doutorado pela USP, ele estuda um dos principais críticos da tecnologia, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), tentando estabelecer possíveis relações entre os conceitos do autor e o cenário atual. Recentemente, ele ganhou uma bolsa de estudos para realizar parte do doutorado na Universidade de Wuppertal, na Alemanha.

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Editor associado da Revista Adventista

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