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Associação Mundial de Psiquiatria aprova documento que considera a religião benéfica no tratamento do paciente

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Comunidade científica reconhece que a religião e a espiritualidade trazem efeitos positivos para a saúde. Créditos da imagem: Fotolia

A Associação Mundial de Psiquiatria aprovou em outubro deste ano um documento reconhecendo a importância de se incluir a espiritualidade no ensino, na pesquisa e na prática clínica da psiquiatria. O assunto foi tema de uma reportagem divulgada nesta semana no site da Folha de S.Paulo.

De acordo com a publicação, embora a proposta não seja de “receitar” uma crença religiosa ao paciente, a declaração sugere que o tratamento inclua conversas sobre o assunto. Não faltam bases científicas para essa decisão. De acordo com a reportagem da Folha, o indexador de estudos científicos do governo americano, o PubMed, lista mais de mil estudos sobre o tema.

Apenas para citar um exemplo, em agosto deste ano a revista Cancer, periódico da Sociedade Americana de Câncer (American Cancer Society), divulgou os resultados de uma pesquisa mostrando que, a partir da análise de vários estudos realizados nos últimos anos envolvendo mais de 44 mil pacientes com a doença, pesquisadores norte-americanos concluíram que a religião e a espiritualidade exercem impacto significativo no bem-estar físico, mental e social de pessoas com câncer (leia mais sobre esse estudo aqui).

A reportagem da Folha esclarece que os “recursos espirituais” avaliados em pesquisas acadêmicas como essa variam bastante, pois levam em conta aspectos como a crença em Deus ou num poder superior, a frequência à igreja ou a participação em programas de meditação e de perdão espiritual. “Mas a grande maioria conclui que há correlação entre espiritualidade e bem-estar”, ressalta o texto.

Conforme menciona Cláudia Collucci, autora da reportagem, o maior impacto positivo do envolvimento religioso na saúde mental ocorre entre pessoas sob estresse ou em situações de fragilidade, o que inclui idosos, pessoas com deficiências ou com doenças clínicas.

Embora a reportagem não trate isso como “prova científica da ação de Deus”, ela considera que uma das hipóteses dos pesquisadores é que a religiosidade reforça laços sociais, reduzindo a incidência de solidão e depressão, além de amenizar o estresse causado por doenças ou perdas.

“Três meta-análises (revisões científicas) já realizadas sobre o tema indicam que, após o controle de variáveis como estado de saúde da pessoa, a frequência a serviços religiosos esteve associada a um aumento médio de 37% na probabilidade de sobrevida em doenças como o câncer. O desafio é entender exatamente como isso acontece”, diz o texto.

“Uma das explicações propostas é a ativação do chamado eixo ‘psiconeuroimunoendrócrino’, em que uma emoção positiva seria capaz de alterar a produção de hormônios que, por exemplo, reduziriam a pressão arterial”, acrescenta a reportagem.

Para o professor de psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora, Alexander Almeida, uma das fontes citadas na matéria, “o impacto da religião e espiritualidade sobre a mortalidade tem se mostrado maior do que a maioria das intervenções, como o tratamento medicamentoso da hipertensão arterial ou o uso de estatinas”.

Efeito negativo

Por outro lado, conforme argumenta Almeida ao longo da matéria, as crenças religiosas também podem ter um efeito negativo sobre a saúde das pessoas. Como exemplo ele cita a ênfase na culpa, a aceitação acrítica de ideias, bem como a transferência de reponsabilidades.

“Piores desfechos em saúde são observados quando há uma ênfase na culpa, punição, intolerância, abandono de tratamentos médicos. A existência de conflitos religiosos internos ao indivíduo ou em relação à sua comunidade religiosa também está associada a piores indicadores de saúde”, explica o professor.

Aproximação histórica

Por muitos anos, como lembra a reportagem, psiquiatras e psicólogos evitaram a religião e a espiritualidade na prática clínica. Uma das razões desse distanciamento seria “a antipatia pela religião que sempre houve entre os ícones da psicologia, como Sigmund Freud”.

Para alguns especialistas, trata-se, portanto, de uma aproximação histórica e necessária. Na opinião de Kenneth Pargament, professor de psicologia clínica na Bowling State University, em Ohio (EUA), que realizou palestra sobre o assunto no início deste mês no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, é preciso levar em consideração que a religião e a espiritualidade são entrelaçadas no comportamento humano. Com base nisso, ele defende que os profissionais necessitam ter o devido preparo para avaliar e abordar questões que surjam durante o tratamento.

Congresso-de-saúde-emocionalO Dr. Kenneth Pargament, uma das fontes da matéria, será um dos palestrantes do Congresso de Saúde Emocional, que acontece na Flórida entre os dias 13 e 17 de janeiro de 2016. Durante o evento organizado pela Igreja Adventista, Pargament irá falar sobre como a religião pode ajudar no enfrentamento dos traumas. Outras autoridades no assunto também vão palestrar no congresso, a exemplo do médico norte-americano Harold Koenig, e do Dr. David R. Williams, professor de Saúde Pública na Universidade Harvard. Na lista de temas que serão tratados durante os cinco dias de programação estão assuntos como a filosofia adventista e a saúde mental, trauma e resiliência, e prevenção e recuperação de dependências.

Já foi pauta

entrevisa-da-RA-com-Belisário-MarquesA relação entre a espiritualidade e a saúde mental foi tema de uma entrevista com o psicólogo Belisário Marques, publicada na edição deste mês da Revista Adventista. Ele ressalta que, nos últimos 20 anos, a Associação Americana de Psicologia também lançou vários volumes tratando dessa questão. “O que as pesquisas mostram é que, se a pessoa percebe a divindade como um ser benevolente e tem um bom relacionamento com essa força superior, desenvolve estratégias de enfrentamento mais saudáveis. Para tanto, é preciso que o indivíduo viva uma experiência religiosa de fato e seja coerente com sua profissão de fé”, diz o psicólogo na entrevista concedida ao jornalista Michelson Borges.

No entanto, Marques também considera que a religiosidade deixa de trazer resultados positivos para a saúde mental e pode até mesmo ser prejudicial quanto ela é “superficial, hipócrita ou ‘morna’”. “Uma religiosidade caracterizada pela encenação, incoerência, imposição, rigidez, intolerância, competitividade, manipulação, agressividade, preconceito, rejeição e autoritarismo alimenta e propaga doenças mentais”, observa. [Márcio Tonetti, equipe RA/Com informações do site da Folha de S.Paulo]

Última atualização em 16 de outubro de 2017 por Márcio Tonetti.

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