A filosofia de uma sigla

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A iniciativa ESG, tripé da sustentabilidade que está fazendo sucesso no mundo corporativo, reflete alguns valores cristãos

Marcos De Benedicto

Crédito da imagem: Adobe Stock

Se você acompanhou as notícias recentes, talvez tenha se deparado com manchetes alarmantes: preço global de alimentos é um dos mais altos da história moderna; 19 milhões de brasileiros passam fome; aquecimento pode expor até 90% da população mundial a riscos de malária e dengue; desmatamento deve castigar 12 milhões de brasileiros com calor intolerável e tornar a região amazônica inabitável. Parte desse cenário sinistro se refere ao futuro, mas é bom lembrar que o amanhã é feito das decisões do presente.

A COP26, conferência do clima que ocorrerá de 31 de outubro a 12 de novembro em Glasgow, na Escócia, será uma tentativa de renovar a meta de manter a temperatura média global não mais que 1,5 grau ­Celsius acima do índice anterior à Revolução Industrial e, assim, evitar o colapso do ecossistema. Se vai funcionar, não sabemos.

Ao mesmo tempo, começaram a se multiplicar conferências, livros e cursos sobre ESG, sigla em inglês para Governança Ambiental, Social e Corporativa, conceito que surgiu em 2005. Em síntese, o que se busca é uma equalização entre prosperidade econômica, qualidade ambiental e justiça social. Hoje o mercado da sustentabilidade é calculado em 31 ­trilhões de dólares.

Entre os fatores que estão criando essa mentalidade podemos mencionar mudança no clima, reavaliação das fontes de energia, envelhecimento da população mundial (em 2050, serão cerca de 2,3 bilhões de pessoas acima de 65 anos), interesse das novas gerações pela filosofia “verde”, comércio global, legislação mais rígida e vigilância da mídia.

Embora a Revista Adventista não seja um periódico de negócios, vale destacar essa iniciativa, tema da matéria de capa, pois ela tem elementos que ecoam alguns valores bíblicos. Muitas pessoas estão descobrindo que é melhor consumir para viver do que viver para consumir. Mas será que o estilo de vida ESG é a solução?

Se a pergunta fosse feita a Tiago White, a resposta seria radical. Num artigo publicado na Review and Herald em 16 de fevereiro de 1864, ele criticou fortemente os movimentos que se vangloriavam da ideia de progresso e detonou a “raça anglo-saxã”, que se orgulhava de defender princípios de retidão, governo justo e uma agenda de paz, mas envenenava “milhões de chineses”, roubava a terra dos índios e carregava “uma espada sempre quente com sangue”.

Para o pioneiro, os representantes do cristianismo europeu e norteamericano na época seriam iguais a todo o mundo, “apenas com um disfarce melhor do farisaísmo”. Com uma retórica cortante, ele concluiu que, enquanto o único “governante legítimo e competente da Terra” (Cristo) estiver ausente, “não haverá nada além de decepção, revolução e problemas”.

Além disso, se fosse hoje, ele poderia destacar os interesses ocultos, as agendas ideológicas, as propagandas disfarçadas de interesses sociais, o risco de o tema ser “sequestrado” para promover uma nova ordem mundial. De fato, a humanidade tem fracassado, e o horizonte é tenso. Um dia, o mundo, que envelhece como uma peça de roupa velha (Is 51:6), passará por um cataclismo (2Pe 3:10-12). “Nós, porém, segundo a promessa de Deus, esperamos novos céus e nova Terra, nos quais habita a justiça” (v. 13). O “ESG” de Deus está em outro nível.

Embora o mundo com o qual sonhamos seja infinitamente melhor do que o proposto pela filosofia ESG e saibamos que ele se tornará realidade somente com a intervenção divina, devemos valorizar as boas iniciativas terrenas. Deus nos deu um só planeta para administrar, uma só humanidade para cuidar e uma única vida para fazer florescer. Façamos o melhor pelo ambiente, as pessoas e o trabalho.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

(Editorial da edição de novembro de 2021 da Revista Adventista)

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Última atualização em 11 de novembro de 2021 por Márcio Tonetti.

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