O enigma do mal

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Por que Deus simplesmente não elimina as tragédias do mundo?
Marcos De Benedicto
Foto: AdobeStock

Falar de dor ou sofrimento é fácil em um plano teórico, mas se torna mais difícil quando o mal, sem explicação, se aproxima do nosso território. Esse foi o caso de Shane Clifton, um professor de Teologia em Sydney, na Austrália. Em outubro de 2010, enquanto pedalava uma bicicleta, ele sofreu um acidente, quebrou o pescoço e ficou tetraplégico. E agora, diante dos meses de hospitalização, dos anos de reabilitação e da perda de mobilidade, com a palavra tetraplegia entranhada no cérebro, como entender por que Deus permitiu tal infortúnio?

“O problema da dor não é a dor em si”, ele escreveu. “A dor é um mecanismo que funciona para mostrar nossos limites. Em nenhuma circunstância isso é mais óbvio do que em uma lesão da medula espinhal, em que a ausência da capacidade de sentir certas dores é em si um perigo. O problema então não é a dor, mas o sofrimento, que é uma aflição prolongada (física, psicológica, social) que não serve a nenhum propósito significativo.”

Na prática, poucos problemas causam tanta perplexidade quanto o sofrimento inexplicável ou de inocentes. Por isso, a noção da teodiceia se tornou popular na teologia. Teodiceia, tema da matéria de capa desta edição, é a tentativa de defender a bondade, a justiça e a onipotência de Deus diante das coisas terríveis que nos acontecem. Enigma e mistério, a presença do mal no mundo se torna mais problemática por causa do tipo de Deus apresentado na Bíblia. Afinal, como disse Abraão, “não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18:25b). Ou como o próprio Deus desafiou Jó: “Você vai pôr em dúvida a Minha justiça? Vai condenar-Me para justificar-se?” (Jó 40:8, NVI). Se não houvesse um Deus bom, poderoso, fiel, justo e amoroso, ninguém teria motivo para questionar a existência das tragédias.

A linha entre o bem e o mal se tornou mais tênue no dia em que Adão e Eva se rebelaram contra a ordem estabelecida pelo Criador. Diante das indagações que o sofrimento levanta, as respostas religiosas têm sido atribuídas a três agentes principais: Deus, o ser humano e o diabo. A partir dos eventos descritos em Gênesis 3, fica claro que a alteração no plano original se deve à presença do pecado. Embora alguém possa questionar por que a ocorrência de um problema moral desencadearia as catástrofes que vemos no mundo e criaria também um estrago físico, o fato é que a queda do ser humano causou, em certo sentido, uma queda cósmica. A própria natureza foi afetada (Rm 8:22). Deus não é o culpado, mas entra na equação porque decidiu não criar um mundo totalmente fechado, livre de riscos e possibilidades. Na verdade, Ele mesmo assume riscos. Por isso, no espaço da liberdade, surgiram forças cósmicas contrárias à estabilidade e à harmonia da vida.

Felizmente, o Deus da Bíblia não é um Criador indiferente à sorte do mundo e às nossas dores. Nem o mal é eterno. No tempo certo, Ele vai agir. Ao visitar meus parentes no sul de Minas há poucos dias, fui ao cemitério da pequena cidade de Campestre e, com um misto de emoção e esperança, li a promessa de Apocalipse 21:4 gravada no mármore do túmulo de Geraldo e Benedita, meus amados pais. O texto diz que Deus vai reverter a ordem das coisas. Se 2 de novembro lhe traz saudade, tristeza e lágrimas, saiba que um dia elas serão substituídas por encontro, alegria e sorrisos.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

(Editorial da edição de novembro de 2018)

Última atualização em 11 de novembro de 2018 por Márcio Tonetti.

Sobre Marcos De Benedicto

Marcos De Benedicto
Editor da Revista Adventista

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