Reações à vacina contra a Covid-19

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Imagem: Adobe Stock

A matéria de capa da edição de fevereiro da Revista Adventista é sobre a vacina contra a Covid-19. Escrito pelo doutor Dorival Duarte, médico infectologista e diretor do Hospital Adventista de São Paulo, o artigo defende a vacinação a partir da perspectiva científica e religiosa. Com sua função de introduzir o tema de capa, o editorial também defendeu a vacinação. Considerando que ele foi divulgado um pouco antes da matéria, surgiu uma pequena polarização nas mídias sociais entre leitores que defendem a vacinação e outros que a criticam, o que foi visto também em mensagens enviadas à CPB. Três pontos levantados pelos leitores merecem comentários adicionais.

1. A vacina que usa RNA mensageiro (mRNA) altera nosso DNA?

Não. O RNA nunca entra no núcleo da célula, onde o DNA é armazenado, e não interage com ele. Portanto, esse tipo de vacina não pode alterar nosso código genético (DNA).

Um leitor questionou se há prova científica de que nosso DNA não será alterado pela vacina que usa a tecnologia de mRNA. A especulação de que esse tipo de vacina pode alterar nosso DNA foi levantada originalmente num contexto de teoria da conspiração, mas a acusação não é verdadeira. Esse mito já foi contestado por cientistas, sites de ministérios da saúde de países avançados e vários meios de comunicação, que conversaram com especialistas.

A lógica é bem simples, embora a tecnologia seja avançada. A vacina de mRNA insere nas células um fragmento sintético de uma sequência de RNA de um vírus. E esse tal RNA mensageiro serve como uma espécie de manual de instruções para que as células criem uma proteína que irá desencadear uma resposta imune. Assim, as células “leem” as instruções, o corpo cria a defesa, e o vírus ou patógeno é combatido eficazmente. No entanto, é totalmente falso que o mRNA possa entrar no núcleo da célula e afetar o código genético.

A vacina que usa o método do mRNA é nova, mas a tecnologia vem sendo estudada há anos. Portanto, essa abordagem não é desconhecida. Os cientistas têm elogiado esse tipo de vacina como uma nova era na vacinologia porque ela não usa elementos infecciosos, tem alta potência, pode ser desenvolvida rapidamente, pode ser adaptada para diferentes doenças, tem potencial para fabricação de baixo custo e sua administração é segura. Entre as vacinas que usam essa abordagem estão a da Pfizer/BioNTech e a da Moderna.

Estudos sobre a técnica foram publicados em revistas de prestígio como Nature, Jama e Molecular Therapy, entre várias outras. Veja alguns artigos sobre o assunto:

https://www.nature.com/articles/nrd.2017.243

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6453507/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6453507/pdf/main.pdf

http://www.health.gov.on.ca/en/pro/programs/publichealth/coronavirus/docs/vaccine/COVID-19_about_vaccines.pdf

https://www.cdc.gov/vaccines/covid-19/downloads/healthcare-professionals-mRNA.pdf

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3597572/ijms-21-06582%20.pdf

https://www.health.harvard.edu/blog/why-are-mrna-vaccines-so-exciting-2020121021599

https://www.eshg.org/index.php?id=910&tx_news_pi1%5Bnews%5D=25&tx_news_pi1%5Bcontroller%5D=News&tx_news_pi1%5Baction%5D=detail&cHash=6908e866a6a4aacac0f1da064043b263#:~:text=mRNA%20vaccines%20do%20not%20change%20DNA.,produce%20a%20response%20against%20it.

2. Há vacinas contra a Covid-19 que usam células fetais?

Sim. Pelo menos cinco vacinas usam culturas celulares em seu processo de elaboração ou teste.

Um leitor sugeriu que seria falsa a informação de que algumas vacinas usam células de fetos abortados em seu processo de desenvolvimento ou testes. Não é fake news. Desde a década de 1960, células de abortos eletivos vêm sendo utilizadas na pesquisa de vacinas contra várias doenças. Pelo menos cinco vacinas contra a Covid, incluindo as de Oxford/AstraZeneca, CanSino Biologics, Janssen (subsidiária da Johnson & Johnson) e do Instituto de Pesquisa Gamaleya (criador da Sputnik V), usam uma de duas antigas linhagens de células de origem humana (HEK-293 e PER.C6). Essas células, que vêm do século passado, já passaram por inúmeras gerações. Portanto, são culturas celulares desenvolvidas em laboratório. Agora, ao contrário do que alegam os críticos, isso não significa que a vacina dentro da seringa contenha células de fetos.

Ao avaliar a questão ética de se usar esse tipo de vacina, as igrejas levam em conta a origem, as circunstâncias e o propósito desse material celular. Para alguns especialistas em ética, a doação de células para o estudo científico é como se fosse a doação de órgãos para salvar vidas. O Vaticano, por exemplo, declarou em 21 de dezembro de 2020 que, quando não há alternativas, é moralmente aceitável tomar vacina contra a Covid-19 elaborada ou testada a partir de células de fetos. Veja nos links a seguir algumas informações confiáveis sobre o assunto (inclusive uma tabela no primeiro link indicando quais laboratórios e vacinas usam tais células em seu processo).

https://s27589.pcdn.co/wp-content/uploads/2020/12/COVID-19-Vaccine-Candidates-and-Abortion-Derived-Cell-Lines.pdf

https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20201221_nota-vaccini-anticovid_en.html

https://www.bioeticacs.org/iceb/seleccion_temas/pandemia/1170.full.pdf

https://www.sciencemag.org/news/2020/06/abortion-opponents-protest-covid-19-vaccines-use-fetal-cells

https://s27589.pcdn.co/wp-content/uploads/2020/12/12.04.20-warp-speed-vaccines.pdf

https://www.historyofvaccines.org/content/articles/human-cell-strains-vaccine-development

https://medicalxpress.com/news/2020-10-fetal-cells-1970s-power-medical.html

https://cbhd.org/content/coronavirus-vaccine-ethics#Objection

3. Qual é a posição da Igreja Adventista?

Vacine-se! Porém, a decisão é sua.

A igreja incentiva a vacinação responsável e não vê nenhuma razão médica ou religiosa para evitar a imunização preventiva e protetora. Contudo, ela não obriga ninguém a tomar vacina. Cada um deve seguir a própria consciência, em consulta com um médico de confiança, levando em conta os programas governamentais de imunização e refletindo também sobre as implicações para a coletividade. Essa é uma posição coerente e equilibrada.

Você pode ler os documentos oficiais recentes da igreja sobre vacinação, entre outros materiais, aqui:

https://www.adventist.org/articles/immunization/

https://adventist.news/en/news/covid-19-vaccines-addressing-concerns-offering-counsel

https://www.adventistas.org/pt/institucional/organizacao/declaracoes-e-documentos-oficiais/imunizacao/

https://noticias.adventistas.org/pt/noticia/ciencia/igreja-adventista-divulga-declaracao-oficial-sobre-vacinacao/

https://www.adventistas.org.pt/news/igreja-adventista-adota-posicao-sobre-vacinacao

https://www.revistaadventista.com.br/da-redacao/destaques/do-laboratorio-para-o-braco/

Para concluir, um detalhe sobre negacionismo. No fim do editorial, aparece esta frase: “se você está entre os que têm sido influenciados pelo negacionismo, leia a matéria de capa e tire suas conclusões”. Um leitor escreveu que não vai tomar a vacina, mas ressaltou que não é “negacionista”. Bem, a frase se aplica a quem foi influenciado pelo negacionismo, uma tendência de negar a realidade, as evidências, os fatos científicos e as verdades aceitas pelo senso comum. Se o leitor diz que não é negacionista, não vamos argumentar. Pode ser uma decisão consciente dele. Sempre procuramos apresentar informação confiável, mas respeitamos o direito de escolha de cada um.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

Última atualização em 9 de fevereiro de 2021 por Márcio Tonetti.

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