Para decodificar a juventude

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Sete “chaves de interpretação” para entender o comportamento dos jovens

Danny Bravo e Wendel Lima

É provável que as gerações mais experientes tenham frases e adjetivos prontos para definir as gerações mais novas. O ponto é que essas rotulações não costumam ser positivas. Contudo, quando lançamos mão dos estudos acadêmicos, podemos ter uma visão mais abrangente e compreensiva da juventude. A seguir, separamos algumas “chaves de interpretação” para entender o comportamento dos jovens.

1. Eles são crentes. Alguns estudiosos entendem que a religiosidade é uma busca intrínseca ao ser humano. Por isso, até mesmo os descrentes manifestariam traços de espiritualidade. Soma-se a isso a observação de que o processo de secularização no Ocidente não acabou com a religião, mas a transformou. No Brasil, menos de 0,5% da população se declarava ateia no último censo (2010). E apesar de o número de pessoas sem religião (8%) ter crescido, sobretudo entre a juventude, isso não significa necessariamente descrença, mas desinstitucionalização.

2. Rebeldes sem causa? A percepção de que a juventude é um desvio social ganhou força na Europa que se urbanizava com a Revolução Industrial. A desestruturação familiar e social decorrente da migração em massa do campo para as cidades fez com que muitas crianças e adolescentes fossem explorados nas fábricas ou ficassem nas ruas expostos ao crime. Por isso, os primeiros estudos acadêmicos sobre juventude queriam entender a delinquência juvenil. Posteriormente, em meados do século 20, os pesquisadores  começaram a se preocupar com a vida boêmia, o radicalismo político, o uso de drogas, a moda transgressora e as preferências musicais dos jovens. Infelizmente, esse estereótipo permanece, se atualiza e acaba sendo reproduzido sobre as novas gerações.

3. A invenção da adolescência. A juventude, como nós a entendemos, não existia na Antiguidade e Idade Média. Não havia fase de transição entre a criança e o adulto. Isso só veio a ser questionado no século 17, quando a puberdade passou a ser vista como um segundo nascimento marcado por inquietações. O conceito ocidental de juventude foi alterado em definitivo no início do século 19 e, a ideia de adolescência, como uma fase livre para a experimentação, se consolidou após a Segunda Guerra Mundial com a cultura pop. Portanto, além de fatores biológico-fisiológicos, a juventude é uma construção social, cuja concepção vai variar conforme o tempo e o lugar.

4. Quando começa e termina a juventude? Não há consenso. Do ponto de vista fisiológico e psicológico, inicia-se com as mudanças físicas da puberdade e o desenvolvimento cognitivo do pensamento abstrato; porém, seu término está mais associado a fatores culturais. Uma pesquisa aponta que os brasileiros consideram que a juventude (37 anos) e a velhice (64 anos) têm terminado mais tarde. Isso mostra que a idade não é o mais importante para determinar o início da vida adulta, e sim marcadores sociais como maioridade civil, autossustento financeiro, estabilidade profissional, matrimônio e paternidade/maternidade.

5. Definição de geração. Geração não é simplesmente um conjunto de pessoas que nasceu no mesmo período; mas, para além disso, que compartilha experiências de vida e leituras de mundo. Apesar de descreverem as transformações da sociedade norte-americana e uma ênfase muito voltada para o mercado de trabalho e consumo, os termos geração Baby Boomer (1947-1964), X (1965-1979), Millennials ou Y (1980-1995), Z (1996-2015) e Alpha (2015-) também costumam ser aplicados ao Brasil, ainda que sem as devidas ressalvas. Entender o conceito de geração nos ajuda a compreender de que tipo de jovem (Y, Z e Alpha) estamos falando quando pensamos em novas gerações.

6. Conflito intergeracional. Costuma ocorrer porque a geração que lidera as instituições sociais espera que os jovens dominem os códigos elaborados por eles e se adequem às regras do mundo adulto. Por outro lado, por estarem mais atentos aos vícios da geração dominante, os jovens tendem a criticar os mais velhos e a propor mudanças no status quo ou até a ruptura dele. Essa tensão intergeracional não é de hoje, mas tem sido intensificada pelas rápidas e profundas mudanças do nosso tempo, somado ao aumento da expectativa de vida, que tem possibilitado a convivência de um maior número de gerações. O ponto é que precisamos da visão ampla e equilibrada dos mais velhos, como também necessitamos que os jovens sinalizem os “pontos-cegos” das gerações anteriores. Equilibrar de modo criativo e produtivo essas tensões é um desafio que está posto para a igreja.

7. A ressignificação da tradição. Não existe, necessariamente, uma geração melhor do que a outra ou um tempo em que o adventismo foi vivido de modo exemplar. Portanto, apesar de os mais velhos esperarem que os jovens herdem e preservem seu legado de fé, caberá à juventude não apenas levar adiante a “tocha da verdade”, mas atuar como agente de inovação e aperfeiçoamento do adventismo.

PARA SABER MAIS:

NOVAES, Allan. “O jovem na literatura acadêmica: elementos para um estado da arte dos estudos da juventude”. In: Fragmentos da Cultura, v. 28, p. 246-257, 2018.

BERGER, Peter. “A Dessecularização do Mundo: uma visão global”. In: Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 1, n. 21, p. 9-24, 2020, p. 10.

“Brasileiro diz que juventude acaba aos 37 e velhice começa aos 64 anos”, jornal Folha de S. Paulo, de 27 de novembro de 2017.

BRAVO, Danny. Religiosidade Z: análise da relação entre o fenômeno sem religião e a geração Z. Dissertação de Mestrado em Ciências das Religiões pela Faculdade Unida de Vitória, Vitória, 2021. Disponível em: http://bdtd.fuv.edu.br:8080/jspui/handle/prefix/404.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 20 e 27.

RODRIGUES, Denise dos Santos. Os sem religião e a crise do pertencimento institucional no Brasil: o caso fluminense. Tese de doutorado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009.

DANNY BRAVO, pastor e mestre em Ciências da Religião, é Diretor de Desenvolvimento Espiritual do UNASP, campus Engenheiro Coelho; WENDEL LIMA, pastor, jornalista e mestre em Ciências da Religião, é Pró-Reitor de Desenvolvimento Espiritual do UNASP

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Última atualização em 17 de março de 2023 por Márcio Tonetti.