Síntese do Concílio Anual

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Extratos da reunião de líderes mundiais da igreja realizada nos dias 7 a 13 de outubro

Márcio Tonetti

Reunião de líderes mundiais da igreja foi realizada no modelo híbrido. Fotos: ANN e Adventist Review

No calendário da sede mundial da Igreja Adventista, outubro é o mês do Concílio Anual, importante reunião administrativa da denominação. O encontro deste ano ocorreu nos dias 7 a 13 no formato híbrido, isto é, reuniu líderes da igreja no escritório da Associação Geral, em Silver Spring, Maryland (EUA), e também virtualmente.

Os relatórios dos administradores da igreja deram um panorama atualizado do impacto da pandemia no adventismo. Em termos demográficos, um dos pontos mencionados foi que a denominação já registrou a perda de 17 mil membros para a Covid-19, mas esse número pode ser bem maior, conforme observou o pastor Erton Köhler, secretário executivo. Isso motivou os membros do Comitê Executivo da Associação Geral a fazer uma pausa para homenageá-los. Um vídeo preparado para a ocasião lembrou das vítimas do coronavírus, como o médico filipino Manuel Bellosillo, de 67 anos, que servia como missionário em Camarões (África) quando foi infectado pelo vírus. Ao que se tem notícia, ele foi um dos primeiros servidores da igreja que morreram de Covid-19.

Por outro lado, apesar da crise sanitária que obrigou a igreja a sucessivos confinamentos, cortes no orçamento, entre outras adaptações, em 2020 foi possível plantar 1.736 novos templos e batizar 781.389 pessoas.

Os diversos canais de comunicação tiveram um papel estratégico nesse contexto. Para se ter uma ideia, na pandemia o número de acessos mensais ao site adventist.org saltou de 5 milhões para 10,5 milhões. Séries evangelísticas como a que foi intitulada “Unlocking the Prophecies” (Decifrando as Profecias), promovidas pelo Hope Channel, também tiveram um alcance expressivo.

Paralelamente, foram lançadas várias iniciativas regionais visando ajudar as pessoas a manter a saúde mental. O projeto “Experience God”, um dos exemplos citados, chegou a receber mais de 6 mil ligações por mês na Alemanha, Áustria e Suíça.

A pandemia também fortaleceu o trabalho da ADRA. Por meio de centenas de projetos (422 relacionados diretamente à crise sanitária), cerca de 20 milhões de pessoas receberam ajuda humanitária. No âmbito da igreja local, os membros também se esforçaram para apoiar a comunidade. Somente nos oito países que compõem a Divisão Sul-Americana, as congregações distribuíram alimentos e roupas para mais de 2 milhões de pessoas. Por sua vez, em Bangladesh, servidores da denominação doaram 10% de seus salários para apoiar famílias mais vulneráveis. 

Entre as áreas afetadas diretamente pela pandemia, a de Publicações e Educação enfrentaram grandes desafios. A colportagem teve que recorrer a plataformas digitais para alavancar as vendas. Já a rede adventista de ensino contou com ferramentas virtuais como o E-class, que já soma mais de 672 mil usuários ativos. Ainda assim, algumas regiões do mundo perderam muitos alunos por conta da crise econômica. É o caso do Instituto Adventista Internacional de Estudos Avançados (AIIAS), nas Filipinas, que chegou a registrar queda de 57% nas matrículas, devido ao fechamento das fronteiras para alunos estrangeiros.   

Na avaliação do pastor Erton Köhler, a igreja sofreu, mas se reinventou, e “está aprendendo a lidar com essa realidade, buscando as melhores oportunidades para servir, ministrar e cumprir a missão neste contexto” (leia uma versão mais detalhada do relatório do secretário executivo aqui).

EXTRATO FINANCEIRO

A situação financeira da igreja dá sinais de melhora, de acordo com o relatório apresentado pelo jamaicano Paul Douglas, tesoureiro da Associação Geral. Até agosto, por exemplo, a sede mundial registrou um aumento de 5,2% nas entradas de dízimos e de 14% nas de ofertas, em relação ao mesmo período de 2020. Outro indicador positivo é que as despesas do escritório da Associação Geral caíram 8,4% em comparação com o ano anterior. Segundo ele, essa economia foi gerada especialmente pela redução do número de viagens, entre outros cortes. Os gastos com o programa da igreja mundial também diminuíram 10%, embora, ainda assim, tenham ficado acima do esperado.

Apesar disso, o cenário ainda é desafiador para as finanças da organização, o que demandará um orçamento conservador para o próximo ano. Inclusive, a previsão é que a igreja tenha 16,4 milhões de dólares a menos para 2022. Citando um exemplo, por causa da desvalorização especialmente do real em relação à moeda norte-americana, no último ano a Divisão Sul-Americana deixou de enviar uma quantia equivalente a 10 milhões de dólares. Sem contar que a igreja precisará compensar a redução das remessas de dízimo destinadas pela Divisão Norte-Americana, tendo em vista a decisão de tornar mais equânime as contribuições das 13 Divisões.

Por essa razão, o plano é usar as reservas ou ativos líquidos (dinheiro disponível), o que está dentro do regulamento, para compensar a perda de receita motivada pela crise econômica global.

“Uma lição que aprendemos com o estresse financeiro dos últimos 18 meses é que três prioridades (missão, crescimento espiritual e liderança) devem guiar nossas decisões de gastos, grandes e pequenos. Mesmo projetos eficientes, baratos e bem-sucedidos podem representar um desperdício de recursos se não estiverem alinhados com as prioridades estabelecidas pela igreja”, complementou Ray Wahlen, tesoureiro associado da Associação Geral.

PREOCUPAÇÕES TEOLÓGICAS

O Concílio Anual também colocou em pauta questões de ordem teológica que desafiam a igreja na atualidade. Aliás, essa foi a tônica do sermão proferido pelo presidente mundial da denominação, pastor Ted Wilson (leia mais aqui), e continuou ecoando em outras palestras (leia mais aqui e aqui).

Para os líderes da denominação, os desafios teológicos do adventismo hoje envolvem questões como: (1) a dificuldade de aceitar a autoridade das Escrituras; (2) perda da identidade adventista; (3) releitura das profecias ligadas ao tempo do fim (incluindo a do decreto dominical); (4) descrença em relação ao relato bíblico da criação em sete dias literais; (5) dicotomia entre o compromisso com Cristo e com a doutrina; (6) questões morais divergentes do padrão bíblico, como a homossexualidade; (7) perda do sentido de urgência no que diz respeito à segunda vinda de Jesus; (8) questionamento da crença distintiva no santuário celestial e no juízo investigativo; (9) descrédito quanto à inspiração de Ellen White e ao papel normativo de seus escritos; e (10) assimilação de um modelo de adoração mais centrado na emoção do que nas Escrituras.

Considerando esse cenário, uma das 200 emendas votadas pelo Comitê Executivo da Associação estabelece que haja maior representatividade de líderes das sedes administrativas nos Conselhos de Faculdades e Universidades. Como foi observado durante as discussões, embora seja necessário reconhecer os esforços de muitos educadores em se manter alinhados com os valores e a missão da igreja, também existem desafios nesse sentido. 

MÁRCIO TONETTI é editor associado da Revista Adventista (Com informações do site da ANN e da Adventist Review)

Última atualização em 13 de outubro de 2021 por Márcio Tonetti.

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