A Ucrânia brasileira

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Os reflexos da guerra e a presença adventista numa das maiores comunidades ucranianas do Brasil

Jordana Graci

Foto: Adobe Stock

Prudentópolis (PR) é uma das maiores comunidades ucranianas no Brasil. Para se ter uma ideia, cerca de 75% de sua população, estimada em pouco mais de 50 mil habitantes, tem ascendência ucraniana. Não é por acaso que ela costuma ser chamada de “Ucrânia brasileira”. Ao andar pelas ruas da cidade, a arquitetura das igrejas católicas de rito bizantino logo chamam a atenção. A paisagem urbana deixa evidente a religiosidade da população.

Como é de se esperar, nas últimas semanas, as conversas nas ruas, no comércio e nos lares têm girado em torno da guerra que ocorre no Leste europeu. O conflito entre Rússia e Ucrânia também tem sido o principal motivo das preces dos moradores. A cidade que leva o título de “capital da oração”, por causa dos costumes religiosos dos prudentopolitanos e das dezenas de templos, tem encontrado na fé a esperança de que necessita para passar por esse momento difícil.

Além das orações, os moradores estão com as portas abertas para receber possíveis refugiados, diante da grande onda migratória que o mundo tem visto nos últimos dias. “O município está em contato direto com o governo estadual e federal para obter informações sobre possíveis refugiados que, se for necessário, poderemos receber”, diz o prefeito Osnei Stadler.

A distância geográfica não diminui os sentimentos de tristeza e apreensão pela situação dos conterrâneos. Muitos têm parentes e amigos lá. Para a cabeleireira, Rose Kosechen, proprietária de um salão de beleza na cidade, o momento é de consternação. “Em nossas veias corre sangue ucraniano. Por isso a gente se coloca no lugar da nossa gente”, desabafa.

Rompendo tradições

Prudentópolis teve origem com os imigrantes ucranianos que começaram a se estabelecer na região a partir de 1890. Essa foi uma das primeiras regiões do Paraná a receber pessoas que deixavam a Ucrânia em busca de oportunidades no interior do Brasil. As terras férteis e o clima semelhante ao da Europa contribuíram para que esses colonos se estabelecessem no coração do território paranaense. Essas famílias tiveram um papel importante, inclusive, no desenvolvimento do modelo cooperativista no estado.

Da esq. para a dir.: Elvira, Onofre e Rose, família adventista de ascendência ucraniana que mora em Prudentópolis, município da região central do Paraná. Foto: Joacir Teixeira da Cruz

Rose faz parte da quarta geração de descendentes de imigrantes ucranianos. Embora tenha crescido em um lar de tradição católica-ucraniana, ela não foi a única da família a abraçar a fé adventista. A primeira a tomar essa decisão foi a mãe, Elvira Kosechen, cuja conversão do catolicismo para o adventismo foi um processo difícil e gradativo. Logo depois o pai, Onofre, também aceitou o batismo. “Somos tradicionalistas em questão de comida e de religião. Então, foi grande o primeiro impacto da mudança na nossa família. Achei que minha mãe e meu pai estivessem ficando loucos”, Rose conta.

Tudo começou quando dona Elvira ouviu pelo rádio a respeito de uma tenda evangelística. Nesse espaço também seria oferecido um curso de como deixar de fumar. Seu desejo de se aprofundar no conhecimento bíblico e abandonar o vício a levou a frequentar as reuniões. “Não tínhamos Bíblia e eu queria muito conhecer o que Jesus ensinou. Nessa época, sabíamos apenas o que o padre falava. Então, aproveitei a oportunidade para estudar a Palavra de Deus, ao mesmo tempo que recebia apoio para abandonar o cigarro”, relembra emocionada.

Panorama religioso

Única igreja adventista da cidade reúne aproximadamente 100 membros. Foto: Joacir Teixeira da Cruz

A surpresa de Rose com a mudança de religião dos pais pode ser mais bem compreendida quando se conhece a cultura do povo ucraniano. No museu do Milênio, localizado em Prudentópolis, existe um acervo com vários objetos que remetem ao trabalho e ao cotidiano dos imigrantes. Boa parte dos itens expostos ali está relacionada à fé dessas pessoas.

Marta Beló, guia do museu, explica como os valores religiosos foram preservados. De acordo com ela, tendo em vista as dificuldades encontradas por causa do idioma e o intuito de manter a fé, os ucranianos que foram chegando tomaram uma decisão que os ajudaria a preservar suas tradições religiosas. “Eles escreveram uma carta pedindo a vinda de sacerdotes do rito bizantino. Hoje moram na cidade 15 sacerdotes da ordem de São Basílio Magno, além do bispo e quatro sacerdotes diocesanos. Temos um total de 60 comunidades, cada uma com sua igreja ucraniana”, detalha.

Dentro dessa paisagem religiosa está a única igreja adventista da cidade. A congregação foi fundada em 1992 e tem pouco mais de 100 membros. O avanço da mensagem é desafiador, especialmente porque o catolicismo faz parte da cultura da população. Contudo, segundo Ivan do Nascimento, pastor local, apesar do desafio, a comunidade adventista pretende em breve plantar uma nova igreja na cidade. “Os membros estão comprometidos com o plantio de uma nova igreja na região e estão muito motivados”, relata.

Além da distribuição anual de livros missionários, a população é incentivada a assistir à TV Novo Tempo, que é transmitida em canal aberto. Há também um colportor que realiza a venda de literatura adventista de porta em porta e o testemunho dos próprios adventistas tem alcançado novos interessados.

JORDANA GRACI é jornalista e atua como assessora de comunicação da Associação Sul-Paranaense, com sede em Curitiba

Última atualização em 21 de março de 2022 por Márcio Tonetti.

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